Por Vanda Azuaga *
Já lá vão uns bons anos, eu ainda vivia na outra casa e vinha passear a minha Mira até ao jardim perto da igreja e do lar de idosos. Dava uma volta em torno da entrada principal, passava junto à capela mortuária e depois voltava ao sítio inicial, pelo lado da entrada do ATL. Era frequente cruzar-me com as crianças que brincavam às caçadinhas, se calhasse ir na hora do recreio. Algumas aproximavam-se da cadela e pediam para lhe fazer festinhas, outras davam gritinhos e afastavam-se cheias de medo.

Quando o tempo permitia, os velhotes que residiam no lar e que eram mais autónomos vinham também até ao jardim, arrastando corpos que definhavam de dia para dia, sempre agasalhados mesmo que fosse verão. Ficavam sentados no murinho ou nos bancos, a olhar para nós, e faziam sons com a boca e gestos com as mãos para atrair a cadela. Eu deixava-a aproximar-se e muitas vezes sentava-me ali também, nos bancos de cimento, ouvindo o rumorejar das memórias. Sabe, menina? E contavam-me coisas da sua vida, de onde eram, em que tinham trabalhado, falavam dos filhos, das doenças e da morte também. Os homens tinham, normalmente, perdido a companheira de vida e sem esse esteio, a opção tinha sido o lar. Falavam delas com carinho, mas eu ficava sem saber se não estariam a romancear a relação. Falavam-me dos animais de companhia que tinham sido obrigados a deixar para trás, o gato, o cão, o canário. E das saudades que tinham deles, de lhes fazer festas, da comunicação que tinham, “aquilo era um bicho, mas só lhe faltava falar! Percebia tudo!”
Foi assim que conheci a minha nova amiga, a que dá de comer aos pássaros. Dos bolsos deformados do casaco de malha saem pontas de lenços de pano amarrotados. A saia é cinza, como o resto da roupa. Move-se lentamente, com a ajuda de duas canadianas, perscrutando o chão, com receio de ser surpreendida por alguma pedra que a faça tropeçar. Dá a volta ao largo da igreja e depois senta-se no murinho do jardim. Tira do bolso um saco plástico transparente com pão e pousando-o no regaço vai-o desfazendo em migalhas. No lar não gostam que eu traga o pão que sobra, confidencia-me. Preferem deita-lo fora do que dá-lo aos passarinhos. A senhora acha bem? E os seus olhinhos azuis, baços da idade, avaliam a minha reacção. Ou dá-lo aos bichinhos, e faz um gesto chamando a minha cadela – queres, minha linda, um bocadinho de pão? E ela quer, quer sempre, que é muito gulosa. E eu seguro-a pela trela, refreando-lhe a gula, não vá ela empurrar e magoar a sua benfeitora.
Chamavam-lhe Fernandinha do ponto aberto, contou-me um dia.
Diz-me que noutros tempos era conhecida como uma grande modista da Senhora da Hora. Vinham senhoras de longe encomendar-lhe vestidos e casacos, gente fina para quem preparava a obra com cuidado e sabedoria. O ponto aberto, conhece? Nem toda a gente sabe fazer! Casei nova, era bonita, sabe? Ainda é, respondo sem mentir. O marido era mau para ela, contou-me, resignada, os olhos baços não sei se de lágrimas ou das cataratas. Menina, naquele tempo era assim… Ralhava comigo, eu era uma moira de trabalho, tratava de tudo em casa, trabalhava pra fora e fazia serões pra acabar a obra que tinha em mãos. Eu tinha de evitar os filhos, ele não queria. Não queria ter mais despesas em casa. Mas eu tinha pena de ficar assim, sem ser mãe. Até que um dia, Deus ouviu as minhas preces e engravidei. Ele não gostou, mas teve de aceitar, já não havia nada a fazer, percebe? Teve um rapaz, um filho único. Amou-o mais do que a tudo. Sacrificou-se por ele. Viu-o crescer e um dia ele teve de partir para a guerra, muito jovem, ainda quase um menino. Comove-se ao falar do seu menino e da partida para a Guiné. Revolto-me contra quem defende novos Salazares e se esquece do que foi a noite fascista. Do que foi a guerra. Mas não digo nada para não a interromper.
Tem 91 anos, feitos há pouco, e sabe de cor os versos que fez quando o filho partiu para a África. Quer ouvir? Insiste, olhando-me com alguma ansiedade, talvez temendo a resposta a que se habituou. Claro que sim! Fica surpreendida, sorri e concentra-se. Recita-me algumas quadras, o coração apertado no casaquinho cinzento. Elogio-lhe a memória. Sorri e funga, o choro quase se solta. Ofereço-me para lhos passar a escrito, tem é de mos dizer devagarinho para eu ir escrevendo. Tomo notas no meu caderninho habitual, enquanto seguro a cadela com a mão esquerda. No dia seguinte, entreguei-lhe uma folha impressa e ela agradeceu-me muito tê-los escrito, tê-los guardado para sempre. Ter-lhes dado valor. O filho sabe que os escreveu, mas não os guardou, diz com tristeza. Dobra a folha e mete-a por baixo do casaco, junto ao peito.
O filho visita-a de vez em quando e leva-lhe um lanche, embrulhado em papel pardo. Traz-me um lanche misto, quando cá vem, compra numa confeitaria, conta. Fica agradecida, contenta-se com as migalhas, tal como os passarinhos. Noto-lhe muita solidão quando me diz que os netos e os bisnetos não vêm. Moram longe… em Gondomar. E agarra-me a mão e pede-me um beijo na face enrugada, agradecendo, “a senhora deu valor aos meus versos”. Fico sem jeito… deve ser a Maredsud que bebi para festejar outras andanças que acentua a minha melancolia. E penso… se Gondomar é longe, que fará Paris ou Bruxelas?

Be the first to comment on "Fernandinha do ponto aberto"