“Agir de forma cooperativa não implica apenas a administração e a gestão de uma empresa cooperativa, mas também significa tornar-se hábil, actuar na luta.”
Perón [nos apresenta o ativismo político cotidiano das cooperativas, sem dúvida, na Argentina e na América Latina].
Por José Yorg, o cooperário*
O cooperativismo político argentino não é um fenómeno recente; seu fundamento reside na fundação do cooperativismo peronista. Tampouco é uma moda passageira ou uma resposta de curto prazo às crises recorrentes do capitalismo dependente. Trata-se de uma tradição histórica profundamente enraizada, arraigada no trabalho, na ajuda mútua, na democracia económica e na organização solidária do povo. Contudo, por décadas, essa força social careceu de uma expressão política nacional própria, capaz de contestar o seu significado, poder e direcção.

O cooperativismo peronista, promovido durante os governos de Juan Domingo Perón (1946-1955), fomentou a organização coletiva de trabalhadores e pequenos produtores dentro do modelo de “Comunidade Organizada”. Apoiado pelo Estado, buscava a soberania económica, incentivar a produção e consolidar um movimento de solidariedade de “luta política” contra os intermediários capitalistas.
Considero oportuno recordar que a formalização da unidade entre o Cooperativismo e o Peronismo ocorreu em 9 de Junho de 1994, em Buenos Aires, em um grande encontro do qual participou o então Presidente da Nação, Dr. Carlos Ménem, Dias depois, foi formada a Coordenação Nacional da mesa provisória do Peronismo-Cooperativismo, na sede do PJ Nacional.
Fui incorporado a esse processo de construção cooperativista-peronista como um quadro político, profissional, técnico e activista, e assumi na província de Formosa a representação plena do Movimento Cooperativo Peronista. Esse evento político histórico, de enorme importância para a militância, envolveu muitas acções, como a defesa das cooperativismo escolar, consignado no Segundo Plano Quinquenal de Perón, entre outras.
A história demonstra que nenhum movimento social consegue transformar estruturalmente a realidade se não construir organização política. O cooperativismo não é excepção. Sua força económica, educacional e cultural tem sido enorme, mas frequentemente fragmentada, dispersa ou subjugada por agendas externas. Aí reside uma das grandes limitações históricas que agora começam a ser superadas.
Da resistência à intervenção consciente
Durante longos períodos, o movimento cooperativo desempenhou um papel defensivo: resistindo, sustentando empregos, garantindo serviços essenciais e preservando comunidades. Essa função foi — e continua sendo — vital. Mas o momento histórico actual exige algo mais: uma intervenção consciente na direcção política do país.
Intervir não significa abandonar os valores cooperativos. Pelo contrário, significa levá-los ao nível da tomada de decisões políticas, onde se definem as regras do jogo económico, social e cultural. Sem uma organização política nacional, o cooperativismo está condenado a reagir a políticas decididas por outros.
O significado profundo da palavra “activado”
A ativação da Mesa Política Nacional do Partido Cooperativo Argentino demonstra que o cooperativismo argentino conta hoje com as condições políticas, organizacionais e históricas para intervir conscientemente no cenário nacional.
Não é por acaso que se fala em activar a Mesa Política Nacional. Activá-la pressupõe que algo já existia: conhecimento acumulado, experiência territorial, pessoal capacitado, práticas democráticas e uma ética baseada na solidariedade. O que está sendo activado é um mecanismo estratégico, uma ferramenta coletiva que entra em operação quando as condições históricas o permitem.
Hoje, essas condições estão presentes. A crise da representação política, o esgotamento dos modelos individualistas e a crescente desigualdade abrem uma oportunidade histórica para que o cooperativismo deixe de ser apenas uma alternativa económica e se estabeleça como um projecto político abrangente.
Organização nacional: uma necessidade histórica
A escala nacional não é um capricho. É uma necessidade. Problemas estruturais — endividamento, concentração económica, exclusão social, degradação ambiental — são decididos nesse nível. Tentar resolvê-los unicamente ao nível local, sem coordenação nacional, é limitar deliberadamente o alcance transformador do cooperativismo.
A organização política nacional permite: Unificar critérios e estratégias; Construir a nossa própria agenda; Disputar o sentido comum; Influenciar políticas públicas; Defender e expandir os direitos coletivos.
Não se trata de copiar modelos tradicionais de política, mas de contribuir com uma forma diferente de fazer política, baseada na democracia participativa, na gestão coletiva e no bem comum.
Cooperativismo e tempo histórico
A activação da Mesa Política Nacional do Partido Cooperativo Argentino não acontece em qualquer momento. Acontece quando o cooperativismo argentino reconhece que simplesmente existir já não basta: é preciso decidir, propor e liderar. É uma interpretação madura do momento histórico, um sinal de que o movimento está assumindo a sua responsabilidade política perante o país.
Nesse sentido, o cooperativismo não surge como um actor improvisado, mas como uma força com legitimidade social, trajetória ética e vocação transformadora.
O desafio é grande, mas a oportunidade também. A organização política nacional do cooperativismo não busca substituir outros actores, mas sim ampliar a democracia, enriquecê-la e guiá-la rumo a um modelo de desenvolvimento humano, solidário e sustentável.
A activação já ocorreu. Agora começa a fase de intervenção consciente.

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