Por Vanda Azuaga *
Era uma vez uma menina chamada Capuchinho Vermelho. Era muito bonita e sensível e a sua avó era a primeira a assegurar-lhe que ela era única e bela. Gostavam muito uma da outra e foram muito felizes quando a avó a levava a passear pela floresta e ambas se divertiam a fazer coisas simples e amorosas. De longe, o Lobo mau espreitava-as e tinha inveja da sua cumplicidade e amor. Aguardava, matreiro, a melhor altura para dar uma machadada naquela relação sadia e vigorosa. Quando a pandemia chegou, Capuchinho deixou de fazer algumas coisas que lhe davam prazer e sentiu-se mais só, com medo e triste. O Lobo mau decidiu então entrar em cena. Aos poucos, convenceu-a de que devia deixar a floresta e começar a relacionar-se, online, claro, com pessoas mais cultas do que a avó, pessoas que tinham estudado muito a origem da tristeza que assolava grande parte da Humanidade. Devagarinho, foi-lhe explicando que aquele mal-estar que ela vinha sentindo (que nem os bolinhos e o chá que avó lhe tinha ensinado a preparar acalmavam) tinha origem em acontecimentos do passado. Tinha sido castigada injustamente? Tinha chorado baba e ranho por não ter sido compreendida? Tinha ficado responsável por tomar conta da avó, uma menina tão novinha?

Que injustiça! Ninguém tem de sofrer pela vida fora esses vexames! A avó tinha-a manipulado, feito chantagem com ela! Os bolos que lhe tinha ensinado a fazer, eram para ela própria se consolar, dizia o lobo, ocultando o quanto tinha ficado invejoso quando as via a cozinhar juntas, espreitando pela janela e danado por nunca o terem incluído naquela brincadeira. Os passeios pela floresta e os ensinamentos, nada daquilo era interessante! Que valor tem a floresta, quando há tanto mundo para ver? E aprender coisas, ouvir histórias? Pufff, o Google sabe muito mais! Que valor tinham as carícias que trocavam, os abraços que deram? Que valor tem uma velha desdentada, inútil, carente e enrugada? Ela só queria era ter a tua atenção, dizia o Lobo, raivoso por nunca ter tido umas mãos que o acariciassem, rugosas ou não, nem uma boca que o tivesse beijado quando ia dormir… E assim se passaram uns tempos e aos poucos, Capuchinho abriu os olhos e percebeu que toda a sua infelicidade resultava da influência da avó. Assim diziam os “psis” que tinham blogs na Net, as influencers da moda, os podcasts mais ouvidos. Até a genética herdara da velha, as coxas gordas, o cabelo crespo e as hemorróidas! Capuchinho estava infeliz, mas era uma mulher empoderada! Percebia finalmente a origem da sua infelicidade, a relação tóxica com a avó.
Um dia, a avó sentiu que estava a chegar ao fim dos seus dias e muito triste pelo abandono a que neta a votara, resolveu pedir-lhe para a visitar pela última vez. Capuchinho acedeu, contrariada e cheia de pressa, sem paciência para uma velha que envenenara a maçã que era o seu Presente. A avó disse-lhe que ia ser a herdeira da sua casa e deu-lhe todo o dinheiro que tinha. O Lobo rondava a casa, procurando saber o que se estava a passar. Num quarto de hora, Capuchinho deixou a avó e antes que uma centelha de empatia a atingisse, já o Lobo se encarregava de saber, então? Então? Fizeram o caminho de regresso à cidade e o Lobo pulava de contente. Iria convencer a Capuchinho a deixá-lo gerir o dinheiro da herança, não era difícil convencê-la de que era o lobo de Wall Street, eheh! E assim foi.
O Lobo, que se dizia amigo dos animais para agradar à ingénua Capuchinho e que comia tofu quando estava com ela à mesa, continuava a caçar coelhos às escondidas e a fazê-la acreditar em todas aquelas patranhas! Passou muito tempo e Capuchinho rodeou-se de gente como ela. Gente que não estava bem, que sentia que algo faltava, mas que aparentava estar sempre top. Gente bonita, elegante, muito culta, que estudava as poses para ficar bem nas fotografias do Instagram, que seguia as tendências na moda, na decoração, nas ideias. Gente que tinha descoberto que a razão dos seus fracassos e inseguranças tinha sido criada, lá longe, na infância, por uns seres maléficos e manipuladores a quem tinham, um dia, chamado vagamente de pai, mãe, avó, avô, tia, prima, vizinho, colega, amigo, que os tinham traumatizado para sempre.
Ora um dia, passava pela floresta um caçador. Era um homem rude, que matava animais para comer porque não queria comer vaca cheia de hormonas nem carne maturada dos restaurantes chiques. Era um homem simples, que não tinha querido ser vacinado contra a Covid e que tinha logo sido apelidado de negacionista. Vivia isolado, perto da floresta e como se habituara a que mais vale só do que mal-acompanhado, convivia bem com a sua solidão. Viu o Lobo e disparou. Nem se lembrou que era um animal em vias de extinção, sentiu medo, aquele medo que nos paralisa, e disparou. O bicho gemeu e caiu no chão. O caçador não ia comer carne de lobo e por isso levou-o ao veterinário e conseguiram salvar-lhe a vida. Mas os cuidados de saúde são caros, acrescenta-lhe o IVA de 23%…
Capuchinho agilizou um crowdfunding e o Lobo sobreviveu e sentiu pela primeira vez as mãos de alguém a fazerem-lhe festas no pelo. Era bom, era muito bom! E o caçador dizia-lhe: Anda lá, Lobinho! Tu vais-te safar, desculpa o mal que te fiz!
Pela primeira vez na vida, o Lobo sentia que alguém o amava e não teve mais inveja de todo o amor que Capuchinho tinha experienciado (e que ele, não). Tinha sido egoísta e malvado quando a aconselhara a abandonar a avó. Havia de lhe ligar e dizer que finalmente se sentia feliz e amado. Mas, quando o fez, Capuchinho estava numa outra videocall e pouco lhe prestou atenção. Andava atarefada e muito comprometida numa campanha para recolher alimentos e roupa para avós refugiadas da guerra…

Be the first to comment on "Uma fábula contemporânea"