A Central Solar Sophia (CFS), um megaprojeto fotovoltaico que pretende ocupar uma área de 3.500 hectares distribuída pelos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, é uma verdadeira ameaça ecológica e social para toda a região. Reportagem do parceiro do Diário 560, A Voz do Operário.
Por Luís Alves, n’A Voz do Operário *
Este projeto vai abranger territórios de elevada sensibilidade ecológica e agrícola, atravessando vários municípios e zonas classificadas, incluindo o Parque Natural do Tejo Internacional e o primeiro geoparque da UNESCO em Portugal, o Naturtejo da Meseta Meridional.

O projeto tem gerado grande contestação tanto da população local como dos movimentos ecologistas e partidos. O grupo parlamentar do PCP questionou, no passado dia 10 de dezembro, o governo sobre os impactos dos projetos fotovoltaicos previstos para a Beira Baixa.
Um crime ecológico em nome da transição energética
O empreendimento desenvolvido pela Lightsource BP, subsidiária da multinacional petrolífera BP, vai abranger uma área vedada de aproximadamente 1737ha no total, dos quais cerca de 434 serão diretamente impermeabilizados por painéis solares, caminhos e infraestruturas associadas.
As vedações de 2,3 m de altura com três fiadas de arame farpado no topo vão ter um perímetro de cerca 138,2 km dividido em 46 parcelas. Além do elevado risco de colisão das aves com o arame farpado, há a considerar a fragmentação dos habitats e o efeito-barreira para espécies de médio e grande porte.
Segundo o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) a instalação da mega central fotovoltaica prevê o abate de 1541 árvores protegidas (1120 azinheiras e 421 sobreiros), além do corte de 21ha de povoamentos de carvalho-negral.
O mesmo estudo regista a existência de 231 espécies de vertebrados na área afectada pela construção da CFS, das quais 30 estão ameaçadas de extinção. Entre as espécies mais sensíveis estão a Cegonha-preta (Ciconia nigra), o Abutre-preto (Aegypius monachus), a Águia-imperial (Aquila adalberti) e várias espécies de quirópteros, anfíbios e répteis protegidos.
Cerca de 1158ha vão ser destruídos totalmente na fase de construção, através de compactação de terrenos pela movimentação de máquinas e a desmatação/desflorestação/decapagem das áreas intervencionadas. Está prevista a movimentação de 1 200 a 1 500 camiões durante a fase de construção. Este projecto vai ter um impacto muito significativo e irreversível para a biodiversidade local.
A instalação de uma quantidade astronómica de paineis solares – cerca de 1,6 milhões de painéis solares instalados em cerca de 400 hectares) – pode provocar o aquecimento da superfície, influenciando assim os fluxos de ar locais e levando à formação de ilhas de calor. Isto provocaria um aumento da temperatura nas áreas circundantes.
As medidas de compensação ecológica apresentadas pelo projeto SOPHIA, são insuficientes e servem mais como aparência verde do que como proteção da biodiversidade. Está prevista a conversão 135 hectares de eucalipto em azinheiras e sobreiros, num total de 228 hectares de plantação. Segundo a Rewilding Portugal “a reconversão ocorre em solos muito degradados. E se juntarmos a este factor o aumento das temperaturas, períodos cada vez mais secos, fruto das alterações climáticas, contribui para uma reduzida taxa de sucesso da plantação”. Ou seja, os ganhos líquidos de biodiversidade não eliminam a perda irreversível de habitats locais.
Projecto Sophia vai criar apenas quatro postos de trabalho a longo prazo
O projeto Sophia não só representa a destruição de fauna e flora, mas também pode ter um profundo efeito negativo na economia local. A destruição de milhares de hectares de terrenos agrícolas, de silvicultura e pastorícia durante e após o fim de vida útil da central, vai agravar ainda mais o déficit produtivo do País e põe em causa a soberania e a independência nacional.
Os postos de trabalho prometidos são temporários e os lucros irão diretamente para a empresa promotora, alheias à região. Em contrapartida, os impactos negativos sobre sectores locais de longa duração – agricultura sustentável, turismo de natureza, produção local – vão ser profundos e irreversíveis.
A própria Lightsource BP admite que só vai ter necessidade de 1000 trabalhadores durante a fase de construção, entre altamente especializados e imigrantes precários, ou seja, na sua maioria não vão ser originários da zona e no final da obra não se irão fixar na região.
Ao fim dos três anos de construção, para os 25-30 anos de vida útil de uma central deste género, estima-se que sejam criados apenas quatro postos de trabalho.
O projeto Sophia vai ter um profundo efeito negativo na economia local. A destruição de milhares de hectares de terrenos agrícolas, de silvicultura e pastorícia durante e após o fim de vida útil da central, vai agravar ainda mais o déficit produtivo do País e põe em causa a soberania e a independência nacional.
A consulta pública da Central Solar Fotovoltaica Sophia e das respetivas linhas de alta tensão foi a mais participada de sempre, tendo reunido mais de 12 mil contributos (12.693). Com esta fase concluída, o processo segue agora para a análise dos contributos e, posteriormente para a emissão da Declaração de Impacte Ambiental pela Agência Portuguesa do Ambiente.

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