O Jornal dos Bairros traz informação, feita por moradores, sobre o que acontece localmente e sobre os temas que influenciam o nosso dia-a-dia. A Rádio Vida Justa monta estúdios nos bairros e dá espaço a MCs e residentes para fazerem ouvir a sua voz. A Voz do Operário traz uma reportagem sobre como se organiza a comunicação popular, à volta de Lisboa.
‘Aqui não entram nem os da Vida Justa’, garantia o polícia ufano, elogiando o cerco feito ao Bairro Estrada Militar da Mina de Água, na Amadora, no mesmo dia de Julho de 2025 em que dezenas de polícias e várias gruas iam também derrubar 60 casas no bairro do Talude Militar, em Loures. Mal ignorando a polícia que a Vida Justa já lá estava. Junto às casas encontravam-se os moradores dos bairros, muitos do movimento, mais outros elementos da Vida Justa da zona e pessoas de outras associações.
O primeiro derrube de dezenas de casas tinha sido há pouco tempo. Na segunda-feira, 30 de junho de 2025, o sol estava a pique e a temperatura aproximava-se dos 40 graus. À frente da Câmara Municipal de Loures, duas dezenas de moradores do Talude abordavam o chefe de gabinete do presidente da câmara por causa do despejo de 36 casas no bairro. Uma moradora tentava explicar que trabalhava duramente e não conseguia pagar nem um aluguer de um quarto e que o derrube da sua casa autoconstruída a ia deixar, a ela e à família, a dormir na rua. O chefe de gabinete argumentava que a autarquia de Loures não queria bairros de barracas. Tinha mais de 1000 pessoas em lista de espera para habitação e, por isso, estava a despejar as centenas de moradores da Quinta do Mocho que estariam em ´incumprimento´. ´Talvez assim possamos atribuir casa à senhora´, aventava.
A tentativa de dividir para reinar não caiu bem. E alguém respondeu que o que estavam a fazer era derrubar casas de forma ilegal, violando todos os prazos e passos que a lei prevê, no derrube das habitações do Talude, e que sabiam bem que a Câmara queria correr com os moradores pobres da Quinta do Mocho”.
Aqui estão três primeiros parágrafos de uma peça sobre a história da Vida Justa no Jornal dos Bairros, que em conjunto com a Rádio Vida Justa compõe o novo projecto editorial acessível no endereço electrónico vidajusta.org.

Os bairros e os seus habitantes só aparecem na comunicação social com uma imagem distorcida que criminaliza a pobreza. A ideia é construir um órgão de comunicação social que dê voz aos trabalhadores dos bairros, mostre o que acontece nos territórios populares e leia a actualidade local, nacional e internacional a partir do olhar das populações dos bairros.
O primeiro grande desafio vai ser a formação de uma redação com moradores das várias zonas da Vida Justa (Lisboa; Margem Sul; Loures, Odivelas e Vila Franca de Xira; Oeiras e Cascais; Amadora e Linha de Sintra; e Porto) e da quase uma centena de bairros onde há gente que participa na Vida Justa.
A segunda ideia é a produção nos bairros de podcasts em cada localidade que alimentem a Rádio da Vida Justa.
Para concretizar este processo vão se realizar, nos próximos tempos, acções de formação nos bairros que permitam criar conteúdos locais e lançar equipas de trabalho. Estas formações, na sequência da primeira realizada no Casal da Mira, com mais de 40 participantes, vão multiplicar-se: o objectivo do Jornal dos Bairros e Rádio da Vida Justa é amplificar a voz das pessoas que vivem nos bairros.
As camadas populares, nomeadamente os trabalhadores que vivem nos bairros, têm pouco poder político e pouca força para imporem os seus interesses na nossa sociedade. Só tendo uma maior capacidade para que considerem os seus problemas, e que aceitem as suas soluções, as pessoas dos bairros podem ver melhorada a sua vida.
A construção de um órgão de comunicação social é um instrumento fundamental para conseguir que as pessoas dos bairros possam construir um futuro melhor. É preciso que as periferias sejam ouvidas. Para a Vida Justa, a periferia não se esgota num lugar geográfico distante do centro. É um lugar social em que as pessoas são afastadas do poder de mandar nas sua vida, por isso é preciso um combate político e mediático que lhes dê poder e voz.

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