Por Alfredo Soares-Ferreira *
Saber se existem activos numa sociedade, classificá-los e guardá-los, é tarefa de vulto, uma vez que será a eles que compete a activação dos mecanismos que conduzem ao movimento contínuo que a política representa, na sua função social. Saber quem identifica os “activos” é um outro assunto, embora seja presumível deduzir que sejam os mesmos que os nomeiam e destituem quando deixam de ser considerados como tal. A propósito, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que o seu homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump, funciona actualmente como um “activo soviético”, ao favorecer a Federação Russa na guerra contra a Ucrânia. Ao dizer isto, Marcelo sinalizou Donald Trump como “…o exemplo de um novo estilo de lideranças políticas, mais emocionais e que apostam no contacto directo com os cidadãos, sem mediação, num mundo em que a balança de poderes também se alterou”, segundo a notícia da agência Lusa, de 27 de Agosto.

Há nas palavras e na ideia de Marcelo algo de estranho e confuso que o leva à comparação espúria com o reino do futebol, “…passaram de aliados de um lado para árbitros do desafio”, ou seja, um “árbitro que apenas quer negociar com uma das equipas, excluindo quer a Ucrânia, quer a Europa…”. Este tipo de linguagem vulgar, comum entre os comentadores desportivos, adquire uma dimensão nova, que catapulta o Presidente português para a crista da onda europeia, para a qual a Rússia é o maior perigo (único?) existente à face da terra e que, obviamente, precisa de ser combatido, quiçá exterminado. Acontece porém que sugerir Trump como aliado de Moscovo introduz uma entropia assustadora na luta titânica contra a Rússia, encabeçada pelos aliados de Washington, os mesmos que combatem Moscovo e gera uma contradição objectiva.
Consideramos, como o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, que a filosofia é uma “luta contra o enfeitiçamento do nosso intelecto mediante a linguagem“. Assim, existem questões que podem ser “dissolvidas” com base na consideração de que elas surgem de um mal-entendido sobre a linguagem. Sendo que o objectivo de Wittgenstein não é construir uma nova teoria filosófica, mas sim dissolver os problemas filosóficos, que entretanto perdem o seu sentido. Wittgenstein questiona assim a possibilidade de uma “linguagem privada“, ou seja, uma linguagem onde as palavras se referem às sensações internas e experiências privadas de um único indivíduo, às quais apenas ele tem acesso. É bem possível que Marcelo se tenha “enfeitiçado” para cometer o dislate fatal que aliás lhe valeu a “condenação” de sectores bem distintos, de um lado e do outro do espectro político. Ao que consta, a sorte que teve, foi ser acusado de “activo tóxico”, um contraponto quiçá justificado pela sua influência perniciosa na “intromissão” classificativa do Presidente dos EUA. Na verdade, a “nota” dada por Marcelo carece de substância. Trump tem hoje, no seu país, um grave problema, que tem a ver com o que vai acontecer com a derrota na guerra da Ucrânia, cujos efeitos está a tentar controlar. Nunca e em circunstância alguma se pode dizer que EUA e Rússia estivessem no mesmo lado da barricada. Não faz sentido, nem actualmente, nem no tempo do relaxamento das tensões diplomáticas entre os dois países. Acresce ao erro a posição da dita “união europeia”, em termos de armamento e possibilidades concretas de uma fraude e uma imensa hipocrisia, “encostando-se” sistemática e acriticamente ao “aliado” americano.
Mesmo que os “activos” queiram recuperar a sua condição, o certo é que carecem de representatividade quando operam num quadro conceptual de submissão a interesses institucionais (políticos e económicos) conhecidos, ficando assim deles dependentes, configurando nas suas análises a retórica de uma dependência submissa. Assim pensa o historiador, jornalista e analista político indiano Vijay Prashad, que é director-executivo do ISR, Institute for Social Research (Instituto de Pesquisa Social) da Universidade de Michigan, uma das mais importantes organizações académicas mundiais de investigação em ciências sociais. Prashad analisa a geopolítica não através da luta entre estados-nação (como fazem os realistas), mas através da luta de classes à escala global, vendo o sistema internacional como um palco onde a burguesia transnacional explora a classe trabalhadora mundial, classificando o sistema internacional como estruturado pela hierarquia imperial, onde os países do designado “Norte Global” (EUA, Europa, etc.) mantêm o seu domínio económico e político sobre o “Sul Global” através de mecanismos como a dívida externa e controlo das instituições financeiras (FMI, Banco Mundial,…), o controlo dos mercados e das cadeias de abastecimento globais, o militarismo e a guerra e uma dominação cultural capaz de levar até ao absurdo o controle das mentes, gizando narrativas para justificar a agressão imperial e o controlo de recursos. E, na mesma linha, está o geógrafo britânico David Harvey, classificando a lógica capitalista como “acumulação por despossessão“, moldando a geografia política e económica do mundo, das cidades às relações internacionais.
Activos como Prashad e Harvey, a que poderíamos juntar o linguísta norte-americano Noam Chomsky significam hoje a resistência a uma modernidade efémera que contraria o avanço das sociedades em busca da libertação. Activos que não são tóxicos e que enquadram a esperança, perante tanta propaganda nefasta e manifestamente reaccionária.
A melhor definição para “activos” como Marcelo é dada pelo advogado Domingos Lopes, num artigo do passado 2 de Setembro, no jornal Público, intitulado “Eppur si muove, senhor Presidente”: um activo “da distopia”. Juntando a Marcelo os líderes da EU, considerados como activos da “distopia europeia, incapazes por anquilose de sair da derrota estratégica da Rússia e perseguir essa ilusão antiga e falida”.
Melhor seria decerto impossível.

Concordo totalmente