Ni Una Más

Acabei de ver a série Ni Una Más no Netflix, e deu que pensar. Ni Una Más é uma minissérie baseada num livro e é muito relevante. Muito bem estruturada, é ficção, mas nem parece, porque muitas mulheres se identificam com aquelas histórias, mostra abuso sexual e as consequências da sua denúncia. Quantas vidas de meninas/mulheres ficam destruídas por causa de uma situação de violência sexual? A série conta a historia de vários tipos de violência sexual: abuso sexual, assédio sexual, envio de fotos com teor sexual, chegando até ao ponto de uma menina se suicidar por ser insuportável para ela viver com as consequências de um abuso. Meninas, adolescentes, mulheres, que vêem a sua vida destruída por agressores. Agressores esses que se pensam impunes. E agem sob esse véu: o da impunidade.

Uma em cada três mulheres portuguesas são vítimas de violência sexual, não sei a estatística para adolescentes, mas é um número que dá que pensar. Pelo menos uma em cada três mulheres fica com a vida destruída, e com consequências para sempre – P-A-R-A–S-E-M-P-R-E – e os homens que as violentam continuam impunes (na maioria dos casos). Quem denuncia, claro, é louca, acusam os agressores.

O movimento #MeToo, que se tornou global em 2017, foi muito mais do que um apelo nas redes sociais. Representou uma poderosa onda de solidariedade entre mulheres que, durante anos — ou mesmo décadas — se viram silenciadas por estruturas de poder, medo e vergonha. Ao partilharem publicamente as suas experiências de assédio e abuso sexual, muitas mulheres encontraram coragem umas nas outras. No entanto, esta coragem tem um custo elevado. Denunciar um agressor não é apenas um ato de justiça: é também um gesto profundamente pessoal e arriscado. Muitas mulheres que levantaram a voz no contexto do #MeToo enfrentaram consequências duras e duradouras, tanto a nível emocional como social e profissional. Para muitas, denunciar significou perder oportunidades de carreira, ser afastadas do local de trabalho, vistas como “problemáticas” ou até mesmo despedidas. O medo de represálias — formais ou informais — ainda impede muitas mulheres de falar. Em certos setores, especialmente os dominados por hierarquias rígidas ou figuras influentes, o silêncio continua a ser uma forma de sobrevivência.

Muitas vítimas são ainda sujeitas ao julgamento público e ao escrutínio das suas vidas pessoais. São questionadas, desacreditadas ou acusadas de exagero. A exposição mediática pode gerar uma sensação de vulnerabilidade extrema, onde a mulher passa de vítima a alvo.

Imagens: Divulgação DLO Producciones.

Apesar de todos os riscos, o movimento #MeToo abriu um caminho de esperança. Incentivou mudanças na legislação, em políticas internas de empresas e instituições, e principalmente, fomentou uma cultura de escuta e responsabilização. Mas há ainda um longo caminho a percorrer. Para que denunciar deixe de ser um ato solitário e doloroso, é urgente garantir apoio psicológico, jurídico e social às vítimas. Que a coragem de falar não seja punida, mas protegida.

Culpar a vítima de abuso sexual é uma forma insidiosa de violência que perpetua o silêncio, o medo e a injustiça. É uma atitude que, consciente ou inconscientemente, desvia o foco do verdadeiro agressor e contribui para um sistema que desprotege quem mais precisa de apoio.

Quantas vezes não ouvimos, ao longo da nossa vida, que a culpa é da vítima? “Se não queria ter relações sexuais com ele, porque foi jantar com ele?”, “alguma ela fez”, “As mulheres também provocam”, “a mulher quer é dinheiro”, “com aquela mini saia, estava à espera de quê?”. Se calhar estava à espera de não ser violada, e depois ouvir estes julgamentos todos. Se calhar queria continuar de pernas à mostra sem ser violentamente atacada por um homem. É a tal história do urso, e da escolha das mulheres na pergunta “preferes estar sozinha numa floresta com um homem ou com um urso.”

A pergunta “O que ela vestia?”, “Porque é que ela não fugiu?”, ou “Porque é que só agora está a falar?”, são exemplos de como, muitas vezes, se responsabiliza quem sofreu o crime, em vez de quem o cometeu. Este tipo de julgamento social mina a credibilidade da vítima, gera vergonha e impede muitas pessoas de denunciarem os abusos que sofreram.

Importa lembrar: a única pessoa responsável por um abuso é o agressor. Nenhuma roupa, comportamento, local ou horário justifica uma agressão. O consentimento é claro: se não é um “sim” livre e entusiástico, é um “não”. E qualquer violação desse princípio é uma violência grave.

A culpa que muitas vítimas carregam não nasce do crime em si, mas da forma como são tratadas depois — por amigos, família, autoridades ou pela sociedade em geral. Romper com este ciclo é um dever coletivo. Isso começa por ouvir sem julgar, apoiar sem questionar e lutar por uma cultura de respeito, justiça e empatia. Culpar a vítima é perpetuar o trauma. Acreditar na vítima é o primeiro passo para quebrar o silêncio e construir um mundo mais seguro para todos.

About the Author

Ines Moreira dos Santos
* Nascida e criada no Ribatejo, rumou a Lisboa, e por lá se licenciou em Psicologia. Fez d´O Segundo Sexo o seu livro de cabeceira e do avô o seu herói. Mãe de três, ativista a tempo inteiro, colunista. Fascinada pelo mundo e pelas pessoas que nele habitam. Acredita na igualdade e sonha com um país onde se cumpra a Constituição.

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