Por Raquel Azevedo *
A RTP1 estreou Espias, série portuguesa que mergulha na atmosfera da Segunda Guerra Mundial e mostra como Portugal, apesar da neutralidade proclamada, foi palco de intrigas, segredos e manobras diplomáticas. Produzida pela Ukbar Filmes e realizada por João Maia e Laura Seixas, a obra coloca o país no centro de um tabuleiro internacional onde nada é o que parece.

Lisboa, a Figueira da Foz e outros pontos do país tornaram-se, entre 1942 e 1945, refúgio para espiões, diplomatas e refugiados. Hotéis, casinos e cafés transformaram-se em cenários de encontros clandestinos, trocas de informação e conspirações em torno do volfrâmio, mineral estratégico para a indústria bélica.
É neste contexto que a série constrói o seu enredo, misturando factos históricos com ficção para revelar como o quotidiano português foi atravessado pela guerra — mesmo quando a aparência era de estabilidade e neutralidade.
Se há algo que distingue Espias no panorama televisivo português é o seu enfoque no protagonismo feminino. Bárbara de Jesus, Rose Lawson, Miss Black, Martha Brenner e outras personagens dão corpo a diferentes facetas da espionagem: da jovem falsificadora que age por sobrevivência às mulheres que jogam com charme e poder para manipular informações vitais.
Esta escolha narrativa oferece uma perspetiva menos habitual do género, onde tradicionalmente predominam figuras masculinas. Aqui, as mulheres são motor da ação e conduzem as principais tensões dramáticas.
A série aposta numa reconstituição histórica rigorosa, com figurinos, cenários e ambientes que recriam o Portugal do Estado Novo. Lisboa é retratada como cidade cosmopolita e perigosa, enquanto a Figueira da Foz surge como refúgio ambíguo entre o lazer e a conspiração.
O tom de thriller percorre cada episódio: códigos secretos, identidades falsas, dilemas morais e escolhas que podem alterar o rumo da guerra. Mais do que ação, a narrativa privilegia o suspense psicológico e o confronto entre ética, lealdade e sobrevivência.
No elenco, destacam-se nomes como Daniela Ruah, Maria João Bastos, Lúcia Moniz e Kelly Bailey, que trazem densidade às personagens femininas. A coprodução luso-polaca e a apresentação em mercados internacionais confirmam a ambição de levar a série além-fronteiras, dando visibilidade ao audiovisual português.
“Espias” pode ser lida como sucessora espiritual de A Espia (2020), também da Ukbar Filmes. Mas enquanto essa se centrava em poucos protagonistas, aqui o universo é expandido, multiplicando redes de intriga e complexidade narrativa.
Mais do que um produto de entretenimento, a série provoca reflexão sobre a memória coletiva. Questiona a ideia de neutralidade e expõe como Portugal foi palco de pressões externas, interesses económicos e escolhas individuais que permaneceram nas sombras da História.
Com produção cuidada, elenco de peso e enfoque culturalmente relevante, Espias representa um marco na ficção televisiva portuguesa. É uma série que entretém com intriga e suspense, mas também ilumina um passado recente, convidando o público a revisitar as ambiguidades de um país que, entre o silêncio e o segredo, esteve no centro de uma guerra invisível.

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