Por Alfredo Soares-Ferreira *
A revisão de ideias e conceitos e a tentativa de os replicar de forma grosseira e simplista, redefinindo-os de forma oportunista, será hoje um dos pilares das governações, um pouco por toda a parte. A redefinição pretende sempre transformar a mistificação numa atitude plausível, esvaziando o conteúdo original. Normalmente, é um processo conduzido por personagens cinzentos, burocratas sem qualificação social e de um perfil baseado na obediência e submissão, esvaziado de sentido crítico. O ministro diz que os professores “perdem a aura da profissão” quando “andam em manifestações”, perdendo-se desta forma “a autoridade na sala de aula e o respeito de gerações de alunos”. Não se trata de uma declaração nem de uma entrevista, são palavras proferidas a centenas de estudantes, numa escola secundária da Figueira da Foz, segundo consta, a mesma que o ministro em tempos frequentou como aluno. Para este “ilustre” funcionário do governo, o professor “é alguém que é respeitado na sociedade por ser alguém que sabe, que tem autoridade, que é respeitado por gerações e gerações de alunos...”.

Convém começar por esclarecer do que parece falar o ministro. O conceito de “aura”, foi proposto pelo filósofo alemão Walter Benjamin e consta do seu ensaio “A Obra de Arte na era da sua Reprodutibilidade Técnica”, de 1935 (publicado postumamente em 1955), como algo que é único, autêntico e insubstituível numa obra de arte. Segundo o Autor, na era da reprodução mecanizada, a aura é enfraquecida, perdendo o sentido original, ou o hic et nunc que a envolve numa teia de tradição e experiência, ou ainda, a manifestação irrepetível de uma distância, por mais próxima que seja. Para assimilar a textura desta “aura”, nada melhor do que recorrer a um dos poetas que melhor a soube capturar e que foi objecto da profunda análise de Benjamin: Charles Baudelaire. No seu poema “À Une Passante” (“A Uma Transeunte”), da obra “As Flores do Mal”, de 1857, está a encarnação perfeita da experiência aurática na modernidade: “A rua ensurdecedora rugia ao meu redor. /Alta, magra, de luto, dor majestosa, /Uma mulher passou, com a mão fastuosa /Levantando, balançando a barra e o festo…”
Claro que nem sequer é obrigatório que o referido ministro se refira à “aura” na perspectiva beijaminiana, podendo associá-la apenas ao significado mínimo de halo ou zéfiro. Contudo, a aplicação deste conceito ao mundo concreto da Educação não é um exercício de mera abstracção, mas uma chave poderosa para decifrar a crise profunda que atravessa o ensino e, em particular, para compreender a figura triste do ministro, não enquanto indivíduo, mas na qualidade de símbolo de uma governação que sistematicamente destrói a aura do acto educativo. Poderá até adiantar-se que o ministro estaria a tentar extrair o objecto do seu halo, para lhe destruir a aura e ainda para padronizar o professor na sua norma reducionista: o professor “serve” apara dar aulas e não para se “meter” em manifestações. Se voltarmos a Benjamin decerto poderíamos afirmar que se trata de um sequestro da aura, uma manifestação de instituir a autenticidade como obediência e o silêncio como virtude. No sua “verdade” institucional, o ministro produz uma linguagem especial, onde “ter aura” significa estar silenciosamente confinado à sala de aula, aceitando passivamente a desvalorização, a sobrecarga burocrática e o desrespeito. E mais, “perder a aura” significa, portanto, exercer o livre direito de se manifestar, de lutar por condições dignas, de recusar a aniquilação da sua profissão.
Na verdade, o ministro, na sua sentença, não julgou os professores, julgou-se a si mesmo, revelando um projecto de governação que é reaccionário na sua visão economicista da educação e autoritário no seu método de actuação. E a resposta não pode ser o silêncio, mas sim o reforço do protesto, na acepção de um verdadeiro guardião da aura de uma profissão que luta, precisamente, para não se extinguir. A sua aura não se perde na manifestação, encontra-se nela. O objectivo do ministro parecer ser dividir a classe, introduzindo uma falsa dicotomia entre o “bom professor“, calado, resignado e “aurático” e o “mau professor” que, protesta, exige, “perdendo a aura“. E finalmente, parece também querer patologizar o protesto, ou seja, transformar a acção sindical e cívica, sinais de vitalidade democrática e compromisso com a profissão, numa falha de carácter, numa perda de uma qualidade quase mística, onde se poderia aplicar o princípio, o problema não são as nossas políticas, o problema é a vossa reacção a elas. Trata-se tão somente de uma verdadeira intenção de deslocar o debate, a saber, em vez de discutir a questão salarial, a insuportável burocracia ou o desinvestimento nas escolas, pretende-se introduzir a problemática de os professores “perderem a aura“, uma falsa questão criada para esconder os problemas reais.
A reprodução da ignorância deve aqui ser analisada pela lupa de Benjamim. No seu conceito de “reprodutibilidade técnica” encontramos decerto algo que nos lembre a “quinta” do ministro (o ministério) como uma máquina de destruir auras. E com um projecto cuja essência é deixar a classe docente “sem aura, nem beira”. Sem a aura que lhes confere autoridade moral e intelectual, e sem a beira que representa as condições materiais mínimas, o respeito e o estatuto social que sustentam a profissão. Afinal, um duplo esvaziamento, simbólico e material.
Ao declarar que os professores em protesto “perdem a aura”, o ministro não faz mais do que completar a sua própria obra de desestruturação. Que pretende uma classe docente perfeitamente domesticável e impotente sem aura, nem recursos, nem voz, que bem pode ser a tríade moderna do “sem eira, nem beira”.

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