Por Vanda Azuaga *
Assentei os quatro pés da cesta de metal no fundo da panela e verifiquei que a água não chegava acima e que iria cozer os legumes a vapor. Liguei o fogão, que soltou o pi habitual e abri a porta do frigorífico. Ainda o tinha organizado há dois dias e já estava tudo misturado outra vez, caixas com restos de comida que invariavelmente acabariam no lixo, a cheirar a plástico e a coisa velha, bocados de beterraba meio descascados, um frasco de pickles comprado na esperança que o avinagrado me devolvesse o apetite que me fugia a olhos vistos.

Tirei uma cenoura, um pedaço de brócolo, uma ramagem escura envolvendo uma superfície macia e arredondada, quase como um clitóris que se esconde. Sorri, com o disparate da ideia! O descascador IKEA estava pendurado na parede, num prego martelado num azulejo quebrado herdado dos últimos inquilinos. Deitei as raspas da cenoura no lixo, lamentando não ter ainda um compostor e coloquei os legumes na cesta. Belmira tinha-me dito que o melhor para a minha doença seria comer muitos vegetais, e isto muito antes de ter começado a campanha eleitoral e todo este desvario em torno da carne.
Pareciam todos doidos, de repente a carne dominava a agenda dos políticos e todos falavam mais ou menos acertadamente sobre o ambiente. A carne, sorri! Por causa da carne estou assim… HIV contraído há anos, sei lá aonde, sei lá com quem… Tenho-me aguentado, a minha médica dá-me os parabéns e mal ela sabe que sigo bem mais os conselhos de Belmira do que os dela. Belmira aconselha-me sobre como comer, como escolher os alimentos, zela para que eu beba muita água, mas também não me priva de beber álcool, apesar da medicação. Que seria de nós sem termos algum tipo de prazer, diz, abrindo os braços para me receber. Sabem-me tão bem os seus abraços!
Não tenho na verdade mais ninguém a quem abraçar e de quem receba calor. Só se me agarrasse à salamandra que comprei o inverno passado. Talvez, o cilindro metálico me devolvesse algum calor, quem sabe, antes de começar a esquentar. E eu manter-me-ia assim, abraçado, até que o lume se abrisse em vermelho e chamas e a pele me ardesse por debaixo da roupa. Como quando tu me abraçavas, antes de partires. Depois de ti, não houve mais mulher nenhuma que me aquecesse como tu. Só Belmira, mas noutro campo. Belmira não é amante, é amiga, é mãe, é companheira. Belmira cheira a fumo e a hortelã e na sua casa há sempre um pau de incenso que arde. Belmira é gorda e nunca foi bonita, mas tece-me manhãs, quando só vejo a noite. A outra noite choveu e o barulho da chuva nos vasos que tenho na varanda fez-me despertar de madrugada. Senti frio e vim buscar uma colcha de lã ao armário, que estendi sobre o lençol.
Comecei a espirrar e receei ficar constipado. Com a minha doença convém que me mantenha afastado de tudo quanto para os demais são pequenas gripes ou constipações. Procurei um pacote de lenços de papel no bolso do roupão. Assoei-me e cheirou-me a fumo. Cheirei-o mais uma e outra vez, fechando os olhos e imaginando-me na sala onde o incenso ardia, em cima da mesa de segredo. Belmira, minha doce amiga.

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