Passou pela política sem deixar que a política lhe retirasse aquilo que tinha de melhor.
Por Álvaro Costa *
Esta segunda-feira dia 7 de Setembro, acordámos todos com a triste notícia da morte de Nuno Cardoso. A sua partida, deixa naturalmente uma marca na cidade que presidiu, na vida política portuense e em todos aqueles que com ele se cruzaram. Mas, para mim, falar do Nuno é falar de algo que vai muito para além dos cargos que desempenhou, das funções que exerceu ou das páginas que inevitavelmente lhe ficarão reservadas na história política da cidade do Porto.
Falar do Nuno é, acima de tudo, falar de um homem bom. E talvez seja precisamente por aí que devamos começar.
Num tempo em que a política parece viver cada vez mais do ruído, do confronto permanente e de uma quase obsessiva necessidade de protagonismo, o Nuno representava uma forma diferente de estar. Era um homem genuíno, afável, de uma educação extraordinária, de uma enorme elevação no trato e de uma serenidade cada vez mais difícil de encontrar. Uma serenidade que nunca significou ausência de convicções e uma educação que nunca o impediu de defender aquilo em que acreditava.

Porque uma coisa é proclamar tolerância, respeito e capacidade de diálogo quando estamos rodeados daqueles que pensam como nós. Outra, bem diferente, é demonstrar essas mesmas qualidades perante quem discorda, critica ou olha para a realidade a partir de uma perspectiva completamente distinta da nossa. E foi precisamente essa uma das características que sempre mais apreciei no Nuno. Nunca precisámos de concordar em tudo para que o respeito e o apoio estivessem presentes.
Falar do Nuno é também falar de um homem puro, talvez demasiado puro para aquilo em que, tantas vezes, se transforma o mundo da política. Acreditava profundamente nas pessoas e confiava no ser humano, talvez até mais do que devia. E confesso que essa confiança me levava, algumas vezes, a chatear-me com ele. Dizia-lhe que nem toda a gente merecia a confiança que ele tão naturalmente depositava nos outros, que nem todos aqueles que se aproximavam o faziam pelas melhores razões e que, infelizmente, há quem confunda amizade com oportunidade, proximidade com conveniência e generosidade com fragilidade.
Mas esse era o Nuno: alguém que acreditava profundamente nas pessoas, mesmo quando a vida lhe dava razões para desconfiar delas.
Hoje, olhando para trás, talvez compreenda melhor aquilo que, na altura, me custava aceitar. O que algumas vezes via como ingenuidade era, afinal, uma das características que melhor revelavam quem ele verdadeiramente era. Preferia correr o risco de se desiludir com alguém a passar a vida desconfiado de todos. E, num mundo político onde o cinismo é demasiadas vezes confundido com inteligência, onde a desconfiança é apresentada como experiência e onde tantas relações são construídas em função da utilidade do momento, preservar essa capacidade de acreditar nas pessoas não é propriamente uma fraqueza.
Talvez tenha pago algumas vezes um preço por essa forma de ser. Mas nunca deixou de ser ele próprio. E esta talvez seja a parte mais interessante da sua história.
Nuno Cardoso deixou a presidência da Câmara há mais de duas décadas, mas não deixou o Porto. Continuou a pensar a cidade, a participar na sua vida cívica e política e voltou, por mais de uma vez, a apresentar-se a eleições autárquicas como independente, incluindo nas últimas eleições de 2025. Não precisava de o fazer para ter um nome ou para acrescentar uma linha ao currículo. O seu lugar na história política portuense estava há muito consolidado.
Fazia-o porque continuava a acreditar que ainda tinha algo para dar à cidade. E talvez seja precisamente esta a diferença entre quem vê a política como destino pessoal e quem a entende como instrumento de serviço. Há quem desapareça quando desaparece o cargo. Há quem deixe de se interessar quando deixa de decidir. Há quem confunda a cidade com o lugar que nela ocupou.
O Nuno continuou.
Curiosamente, há apenas dois meses, a própria cidade teve a oportunidade de reconhecer esse percurso, atribuindo-lhe a Medalha de Honra da Cidade do Porto, a mais elevada distinção municipal. Há momentos que, à distância de tão pouco tempo, ganham um significado que ninguém poderia antecipar.
Mas aquilo que eu guardarei do Nuno não cabe numa medalha.
É por isso que, quando penso nele, interessam-me muito menos os títulos ou os cargos que ocupou do que a pessoa que sempre permaneceu para além deles. Porque os cargos passam, os mandatos terminam, os gabinetes são ocupados por outros e aquilo que, durante algum tempo, parece definir a importância de alguém acaba, inevitavelmente, por se resumir a algumas linhas numa biografia. O que verdadeiramente permanece é muito mais simples, mas também muito mais difícil de construir: a forma como tratámos aqueles que se cruzaram connosco, a palavra que soubemos honrar, o respeito que mantivemos mesmo na divergência e a consideração que demonstrámos por quem nada tinha para nos oferecer em troca.
E é precisamente aí que encontro uma das memórias mais fortes que guardarei do Nuno. Na forma como sempre me tratou, na consideração e no respeito que nunca dependeram de concordarmos em tudo, na disponibilidade com que me recebeu e nas muitas conversas que fomos tendo ao longo do tempo. Fica-me, sobretudo, aquela serenidade tão própria de quem não precisava de levantar a voz para se afirmar, nem de diminuir os outros para demonstrar aquilo em que acreditava. Talvez por isso me custe aceitar que qualidades que deveriam ser absolutamente normais na vida pública se tenham tornado, nos dias de hoje, quase excepcionais.
E talvez seja também aqui que devamos parar por momentos para pensar no tipo de política que estamos a construir. Uma política onde tantas vezes se confunde notoriedade com relevância, agressividade com firmeza e ruído mediático com capacidade de liderança. Onde é necessário diminuir quem pensa de forma diferente, transformar o adversário em inimigo e fazer do confronto quase um fim em si mesmo. O Nuno representava, para mim, precisamente o contrário disso. A possibilidade de ter convicções sem perder a educação e de respeitar os outros sem abdicar daquilo em que se acredita.
Não escrevo estas palavras para construir a imagem de um homem perfeito. Seria injusto para ele e pouco sério da minha parte. Como qualquer pessoa que passou pela vida pública, tomou decisões, acertou muitas vezes e terá errado outras. Mas há uma diferença enorme entre reconhecer os erros de quem exerceu responsabilidades e permitir que eles apaguem a dimensão humana de quem os cometeu.
E essa dimensão humana do Nuno, é precisamente aquilo que mais quero recordar.
Hoje, o Porto perdeu um antigo Presidente da Câmara e uma figura da sua história política recente. Muitos perderam um amigo. Eu perdi alguém que sempre me tratou com uma consideração e um respeito que nunca esquecerei. Mas todos perdemos, acima de tudo, um homem bom, que conheceu o poder sem permitir que o poder se tornasse maior do que a pessoa que era.
Talvez, no final de tudo, não exista maior elogio para alguém que passou pela vida pública. Soube servir, sem se servir.

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