Quando a aristocracia britânica entra no mundo do crime

Guy Ritchie regressa a um território que conhece particularmente bem em The Gentlemen, série que transporta para a televisão o universo apresentado no filme homónimo de 2019. Crime organizado, humor negro, violência, personagens excêntricas e diálogos rápidos voltam a encontrar-se numa história onde a elegância britânica convive, de forma quase natural, com o tráfico de droga.

No centro da narrativa está Eddie Horniman, interpretado por Theo James. Militar de carreira, Eddie regressa a Inglaterra depois da morte do pai e descobre que herdou não apenas o título de duque e a propriedade da família, mas também um problema inesperado: escondida nas suas terras funciona uma enorme operação de produção de cannabis.

É através desta descoberta que Eddie entra no mundo de Susie Glass, interpretada por Kaya Scodelario. Responsável por gerir os negócios criminosos da família, Susie é uma das personagens mais interessantes da série. Inteligente, fria quando necessário e perfeitamente consciente das relações de poder à sua volta, não desempenha o papel tradicional da mulher que acompanha o protagonista. Pelo contrário, durante grande parte da história é ela quem domina o terreno.

A relação entre Eddie e Susie constitui um dos motores da narrativa. Existe atração, mas também competição e desconfiança. Cada conversa parece esconder uma negociação e cada gesto pode significar uma mudança de alianças. Theo James e Kaya Scodelario conseguem transmitir essa tensão sem que a série necessite de transformar imediatamente a relação num romance convencional.

Eddie também atravessa uma transformação interessante. Inicialmente, parece querer apenas proteger a família e retirar o negócio ilegal das suas terras. Porém, quanto mais conhece aquele universo, mais demonstra possuir as características necessárias para sobreviver nele. Sabe negociar, manter a calma e, quando necessário, ser implacável. Aos poucos, percebemos que talvez o problema já não seja apenas conseguir sair do crime, mas perceber se Eddie realmente deseja abandoná-lo.

É precisamente aqui que Guy Ritchie introduz uma das ideias mais interessantes de The Gentlemen: a distância entre aristocratas e criminosos talvez não seja assim tão grande. Ambos os mundos vivem de hierarquias, territórios, heranças, dinheiro, influência e códigos próprios. A série diverte-se constantemente a colocar lado a lado a respeitabilidade das grandes propriedades inglesas e a brutalidade do crime organizado.

Visualmente, esse contraste funciona muito bem. Mansões, fatos impecáveis, automóveis luxuosos e paisagens rurais são enquadrados com enorme cuidado, enquanto acontecimentos violentos ou completamente absurdos surgem quase sem aviso. A violência de Ritchie raramente pretende ser realista: é estilizada, exagerada e muitas vezes utilizada como parte da própria comédia.

Também há espaço para personagens deliberadamente caricaturais. Freddy, irmão de Eddie, interpretado por Daniel Ings, é provavelmente o melhor exemplo. Impulsivo, privilegiado e incapaz de avaliar as consequências das próprias decisões, transforma-se numa fonte permanente de problemas e em alguns dos momentos mais cómicos da série.

Quem conhece a filmografia de Guy Ritchie encontrará elementos familiares. O realizador recupera características presentes em obras como Snatch e Lock, Stock and Two Smoking Barrels: criminosos carismáticos, humor britânico, planos que correm mal e personagens que acreditam controlar uma situação até descobrirem que fazem parte de um jogo muito maior.

Por trás do humor, porém, existe uma interessante sátira de classe. A série sugere que a aparência de respeitabilidade depende muitas vezes apenas do contexto social em que o poder é exercido. Uns recebem títulos, propriedades e brasões; outros constroem impérios clandestinos. No universo de Guy Ritchie, ambos sabem que, no final, poder, dinheiro e sobrevivência continuam a determinar as regras do jogo.

E talvez seja essa a grande ironia de The Gentlemen: descobrir que, quando retiramos os fatos caros, os títulos e as convenções sociais, os chamados “cavalheiros” podem ser tão perigosos como os criminosos que dizem desprezar.

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Raquel Azevedo
* Raquel Azevedo é técnica multimédia, produtora, activista sindical e cinéfila.

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