Por Vijay Prashad, da Globetrotter *
Sentado em uma sala animada da Universidade de Amesterdão, pergunto aos alunos sobre o respeito que demonstram por seu ex-primeiro-ministro e actual chefe da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO), Mark Rutte. A sala está animada e descontraída. Ninguém parece demonstrar a Rutte o respeito que ele talvez mereça. Eles o veem como uma figura vazia que serviu como primeiro-ministro de Outubro de 2010 a Julho de 2024, um total de mais de cinco mil dias — o chefe de governo com o mandato mais longo na história holandesa. Sob a liderança de Rutte, a Holanda canibalizou seu estado de bem-estar social e fortaleceu seu aparato repressivo: mais dinheiro para armas e menos para a saúde infantil. Perguntei a eles sobre Rutte não apenas por seu período na Holanda, mas também por seu papel à frente da OTAN. Ele acabara de fazer uma observação surpreendente na Conferência de Segurança de Munique, em 11 de Dezembro de 2025:
“O conflito está à nossa porta. A Rússia trouxe a guerra de volta à Europa, e devemos estar preparados para a escala de guerra que nossos avós e bisavós enfrentaram. Imagine: um conflito atingindo todos os lares, todos os locais de trabalho, destruição, mobilização em massa, milhões de deslocados, sofrimento generalizado e perdas extremas.“
Mark Rutte

A imagem de guerra total pintada por Rutte parece bizarra em Amesterdão, uma cidade com menos de um milhão de habitantes que recebeu cerca de 20 milhões de turistas em 2024 e que parece estar superando esse número este ano. As ruas estão lotadas, os museus cheios e há uma indiferença geral no ar com a aproximação do Natal. Eu estava sentado na Universidade para conversar com Chris De Ploeg, autor de De Grote Koloniale Oorlog (A Grande Guerra Colonial), um clássico contemporâneo em holandês, e o principal candidato da formação de esquerda De Vonk, que concorrerá unida às eleições locais de Amesterdão no próximo ano (com Chris como candidato principal). Chris é claro: durante o mandato de Rutte, sempre que se discutia a necessidade de financiamento para necessidades humanas, o governo de Rutte dizia que não havia verbas, mas no momento em que a discussão chegava ao aumento dos gastos militares… bem, os fundos se tornavam imediatamente disponíveis. “Não se trata de economia”, diz Chris, “mas de política. Trata-se de escolhas políticas”.
Actualmente, os Países Baixos ocupam o sétimo lugar entre os países da OTAN em termos de gastos militares. O país gasta 24 mil milhões de euros anualmente com as forças armadas, o que representa 2% do Produto Interno Bruto (PIB) ou 3,7% do total dos gastos governamentais (dados de 2022). Os Países Baixos atingiram a meta anterior de 2%, mas estão muito aquém da nova meta de 5% do PIB para gastos militares. Para alcançar esse valor, os Países Baixos terão que triplicar os gastos militares para 60 mil milhões. Isso significará reduzir o investimento governamental em previdência social, saúde, educação e serviços públicos, bem como aumentar a dívida pública. Essa seria uma mudança fundamental nas prioridades nacionais. “Sem uma forte esquerda pressionando-os“, argumenta De Vonk, os liberais e a direita “venderão todo o nosso estado de bem-estar social para os militares“. Isso já está em curso, e sem organizações como a De Vonk, o processo de militarização já começou. Amesterdão deixará de ser a cidade dos turistas. Ela se tornará ainda mais vazia.
A actual autarca de Amesterdão, Femke Halsema, é do partido Esquerda Verde (GroenLinks). Ela talvez se interesse em saber que, se os países da OTAN, incluindo a Holanda, aumentarem seus orçamentos militares para 5%, isso não só impactará suas políticas fiscais, como também terá uma enorme “pegada de carbono“. De acordo com o guia da Scientists for Global Responsibility, qualquer acréscimo de 100 bilhões de dólares ao orçamento militar resultará em 32 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono. Um aumento de 5% na OTAN representaria um orçamento militar de 2,54 trilhões de dólares (em 2024, a OTAN gastou 1,15 trilhão de dólares). Esse aumento geraria 365 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono, o que equivale a quase as emissões anuais totais de países como a Itália ou o Reino Unido. A questão da pegada de carbono decorrente do aumento de 5% nos gastos militares não foi levantada por nenhum político europeu de renome.
Sombra da Guerra
Um dia após o discurso de Rutte, o ministro das Forças Armadas britânicas, Al Carns, declarou ao The Telegraph: “Nos últimos 50 a 60 anos, dependemos das garantias de segurança dos EUA e agora, com as ameaças multipolares que os EUA enfrentam, eles podem não ser tão directos quanto no passado”. Devido a essa protecção militar americana, disse Carns, o Reino Unido “terceirizou a sua letalidade para outros. Precisamos garantir que aumentemos a nossa letalidade”. Em seguida, ele fez a seguinte observação: “A sombra da guerra está a bater à porta da Europa mais uma vez. Essa é a realidade. Precisamos estar preparados para dissuadi-la. Colectivamente, na OTAN, precisamos lembrar que, numericamente, superamos a Rússia significativamente”.
Há dois pontos a considerar aqui: primeiro, se a Rússia representa uma ameaça real para a Europa e, segundo, se a Europa consegue superar a Rússia.
Em meados de Novembro de 2025, o ministro das Relações Exteriores alemão, Boris Pistorius, declarou ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung que a Rússia atacaria a Europa em 2029 ou “já em 2028, e alguns historiadores militares acreditam até que já tivemos o nosso último verão pacífico”. Algumas semanas depois, o presidente russo, Vladimir Putin, participou da cúpula da Organização do Tratado de Segurança Coletiva em Bishkek (Quirguistão), onde negou que a Rússia tivesse qualquer desejo de atacar a Europa. Ele afirmou que tais ideias eram uma “mentira”, um “absurdo” e “ridículas”. Questionado por repórteres sobre intenções de invadir a Europa além da Ucrânia, Putin disse: “A verdade é que nunca tivemos essa intenção. Mas se querem ouvir isso de nós, bem, então vamos documentar. Sem dúvida”. Em outras palavras, a Rússia estava preparada para dar uma garantia por escrito. A Rússia não apenas afirmou que não pretende invadir a Europa, como também não há motivos para que o faça.
A linguagem da guerra é imprudente. A Rússia é uma potência nuclear e certamente não hesitará em usar essas armas se se sentir ameaçada. Mas, além disso, os próprios países europeus admitiram que simplesmente não têm forças para sustentar uma guerra prolongada. O ex-ministro das Forças Armadas do Reino Unido, John Spellar, disse ao Parlamento em Março de 2024 que o Reino Unido tinha capacidade para resistir a dez dias de conflito, e o próprio Comité de Defesa do Reino Unido escreveu que levaria muitos anos para acumular estoques de munição. É provável que a força combinada dos exércitos da OTAN, mesmo sem os Estados Unidos, possa resistir a uma invasão russa. E a Rússia seria insensata em testar o arsenal nuclear que a França e o Reino Unido possuem.
Existe realmente uma sombra de guerra? Ou será que falar tanto de guerra é apenas uma forma de políticos anacrónicos como Rutte, Carns e Pistorius se sentirem relevantes num mundo em transformação? Chegou a hora de pessoas como Rutte saírem do palco da história e cederem esse espaço a figuras como De Vonk, pessoas sensíveis como Chris De Ploeg, Suzanne Lugthart, Freya Chiappino, Carlos van Eck, Niels Moek, Hidde Heijnis, David Schreuders, Nina Boelsums e Jazie Veldhuyzen. Eles estão interessados na humanidade. Não nas ilusões de uma guerra permanente.

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