Por Vanda Azuaga *
O meu cota saiu de casa. A cena está estranha. Não quero falar com a minha mãe, cada vez está mais chata. Faz-se de forte e não quer chorar à minha beira, mas dou fé dela estar a fungar. Pode ser de estar a picar cebolas, mas acho que agora é diferente o choro. Hoje apareceu toda arrebitada à minha beira, a falar muito alegre para mim, a querer saber como vai a escola, como vão os treinos. Até parece porreira, mas depois chateia-me para levar um casaco, que à noite arrefece e o burro nunca se queixou da albarda. Usa estas expressões maradas que aprendeu com a mãe da Mariana, que é lá dos lados de Chaves. Só nas aldeias se dizem destas coisas!

O que vale é que quando me meto no quarto nem se atreve a lá entrar — a mãe da Ju, que também se separou há pouco tempo e que agora tem FB e tudo, é que aprendeu na net uma piada que se a minha mãe soubesse ia ficar feliz. Dizia ela outro dia, entrar no quarto da minha filha é como ir ao Ikea, não tenciono trazer nada, mas saio de lá com um prato, dois copos, uma colher! Ao menos tem sentido de humor, não é como o meu pai ou a minha mãe. Não se falavam há que tempos, mas também não os ouvia discutir. Ao menos isso, em casa da Ju até pratos andavam pelo ar. Acho mal essas cenas mas outro dia na escola fomos a uma palestra sobre violência no namoro e estavam a achar mal que um gajo controle o telemóvel da namorada. Era só o que faltava eu não ter a passe do FB da Ju!
Dos pais dos meus amigos, só o pai do Mingos é que é fixe, os outros são como o meu pai. Nem querem saber de nada, só da escola e ameaçam que se chumbarmos vamos trabalhar como no tempo deles. O meu ainda disse que me ia pôr a aprender qualquer coisa na oficina, nas férias do verão passado, mas dei-lhe a volta e não fui. Era o que faltava, ia pra lá fazer o quê? Não quero ser mecânico, quero ter uma boa profissão em que se ganhe bom dinheiro. Jogador de futebol, que ainda por cima acaba cedo e depois posso investir o graveto e viver bem.

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