“Erradicar a pobreza não é um acto de caridade, é um acto de justiça.”
Nelson Mandela
“Os políticos fingem combater a pobreza, mas, no fundo, a sustentam em benefício próprio: na medida em que as pessoas mais vulneráveis precisam de programas sociais para sobreviver, as estruturas de poder podem se aproveitar e pressioná-las para obter seus votos. Seria como explorar o desespero e a fome do povo.”
Micaela Urdinez, in La Nacion
Por José Yorg, o cooperário
Neste momento histórico, o cooperativismo e a economia social surgem como alternativas emancipatórias: promovem a autogestão, a solidariedade e a redistribuição equitativa dos frutos do trabalho.
É essencial enfatizar uma observação amarga, mas necessária: a pobreza na Argentina não é um acidente temporário ou um fenómeno passageiro. Pelo contrário, ela é programada, planeada e executada sob diretrizes políticas e ideológicas que favorecem determinados sectores sociais e económicos.

Do ponto de vista da ciência política, entendemos que os modelos de dominação se expressam em estratégias que gerenciam intencionalmente a escassez e a abundância. Assim, a pobreza não surge como consequência natural de crises externas ou “ineficiências técnicas”, mas sim como resultado de decisões deliberadas. Por trás de cada percentual de pobreza, de cada criança desnutrida e de cada trabalhador precário, existe uma estrutura política que legitima a desigualdade e uma estrutura ideológica que a normaliza.
Neste sentido, devemos assumir que existe uma programação da pobreza, que cumpre pelo menos três funções essenciais:
1. Função disciplinadora social: Manter grandes sectores da população em condições de vulnerabilidade impede a organização autónoma e a capacidade de exigir direitos.
2. Função de transferência de recursos: A pobreza é o reflexo da concentração. A riqueza de poucos é construída sobre a privação de muitos, e isso não é coincidência.
3. Função de legitimação política: as elites reproduzem um discurso que culpa os próprios pobres por sua situação, desviando a atenção das verdadeiras causas estruturais.
As políticas públicas, ao responderem a essas diretrizes, tornam-se engrenagens desse esquema perverso. Benefícios sociais limitados, reformas trabalhistas regressivas e liberalização económica irrestrita são exemplos de instrumentos que consolidam a dependência social e a desigualdade económica.
Diante dessa realidade, o desafio não é meramente económico, mas político e cultural. Trata-se de desvendar a intencionalidade da pobreza e romper com a narrativa que a naturaliza. Nesse ponto, o cooperativismo e a economia social emergem como alternativas emancipatórias: promovem a autogestão, a solidariedade e a redistribuição equitativa dos frutos do trabalho.
A Argentina, e a América Latina como um todo, devem reconhecer que a pobreza não pode ser resolvida apenas com programas assistenciais, mas sim com transformações profundas na estrutura de poder. A mudança requer consciência política, organização social e uma nova hegemonia cultural que coloque a dignidade humana em seu centro.
O alerta que repito não tem a intenção de semear o desespero, mas sim de abrir os olhos para uma verdade incómoda: a pobreza é programada, mas também pode ser desprogramada se houver vontade política, organização popular e uma pedagogia emancipatória que ilumine o caminho.
Em fraternidade, um abraço cooperativo!

Be the first to comment on "Pobreza na Argentina: Um desenho político e ideológico"