Pobreza na Argentina: Um desenho político e ideológico

“Erradicar a pobreza não é um acto de caridade, é um acto de justiça.” 
Nelson Mandela

“Os políticos fingem combater a pobreza, mas, no fundo, a sustentam em benefício próprio: na medida em que as pessoas mais vulneráveis ​​precisam de programas sociais para sobreviver, as estruturas de poder podem se aproveitar e pressioná-las para obter seus votos. Seria como explorar o desespero e a fome do povo.” 
Micaela Urdinez, in La Nacion

Neste momento histórico, o cooperativismo e a economia social surgem como alternativas emancipatórias: promovem a autogestão, a solidariedade e a redistribuição equitativa dos frutos do trabalho.

É essencial enfatizar uma observação amarga, mas necessária: a pobreza na Argentina não é um acidente temporário ou um fenómeno passageiro. Pelo contrário, ela é programada, planeada e executada sob diretrizes políticas e ideológicas que favorecem determinados sectores sociais e económicos.

Do ponto de vista da ciência política, entendemos que os modelos de dominação se expressam em estratégias que gerenciam intencionalmente a escassez e a abundância. Assim, a pobreza não surge como consequência natural de crises externas ou “ineficiências técnicas”, mas sim como resultado de decisões deliberadas. Por trás de cada percentual de pobreza, de cada criança desnutrida e de cada trabalhador precário, existe uma estrutura política que legitima a desigualdade e uma estrutura ideológica que a normaliza.

Neste sentido, devemos assumir que existe uma programação da pobreza, que cumpre pelo menos três funções essenciais:

1. Função disciplinadora social: Manter grandes sectores da população em condições de vulnerabilidade impede a organização autónoma e a capacidade de exigir direitos.

2. Função de transferência de recursos: A pobreza é o reflexo da concentração. A riqueza de poucos é construída sobre a privação de muitos, e isso não é coincidência.

3. Função de legitimação política: as elites reproduzem um discurso que culpa os próprios pobres por sua situação, desviando a atenção das verdadeiras causas estruturais.

As políticas públicas, ao responderem a essas diretrizes, tornam-se engrenagens desse esquema perverso. Benefícios sociais limitados, reformas trabalhistas regressivas e liberalização económica irrestrita são exemplos de instrumentos que consolidam a dependência social e a desigualdade económica.

Diante dessa realidade, o desafio não é meramente económico, mas político e cultural. Trata-se de desvendar a intencionalidade da pobreza e romper com a narrativa que a naturaliza. Nesse ponto, o cooperativismo e a economia social emergem como alternativas emancipatórias: promovem a autogestão, a solidariedade e a redistribuição equitativa dos frutos do trabalho.

A Argentina, e a América Latina como um todo, devem reconhecer que a pobreza não pode ser resolvida apenas com programas assistenciais, mas sim com transformações profundas na estrutura de poder. A mudança requer consciência política, organização social e uma nova hegemonia cultural que coloque a dignidade humana em seu centro.

O alerta que repito não tem a intenção de semear o desespero, mas sim de abrir os olhos para uma verdade incómoda: a pobreza é programada, mas também pode ser desprogramada se houver vontade política, organização popular e uma pedagogia emancipatória que ilumine o caminho.

Em fraternidade, um abraço cooperativo!

About the Author

Jose Yorg
José Yorg é educador e docente técnico em Cooperativismo, membro da Rede de Investigadores Latinoamericanos de Economia Social e Solidária (RILESS), que envolve universidades da Argentina, Brasil, Equador e México. Este argentino nascido em Assunción (Paraguay) desenvolve actividades na Tecnicoop, na província de Formosa, onde é também perito judicial técnico em Cooperativismo no Superior Tribunal de Justiça.

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