O silêncio dos inocentes

O mercado do tráfico de órgãos

Algumas produtoras estrangeiras de conteúdo áudio visuais aliaram-se a políticas de sensibilização e educação cívica e começaram há alguns anos a focar temas actuais, alertando para modus operandi criminais, que, por serem levados ao público em formato lúdico, consegue um impacto exponencialmente maior que qualquer campanha didática. O Brasil, país com uma mobilidade humana considerável, seguiu este formato e deu à tela novelas como Salve Jorge e Filhos da Terra, uma sobre o aliciamento de jovens brasileiras para a imigração ilegal rumo à Europa, fazendo-as cair nas malhas das redes de tráfico para exploração sexual e outra sobre o drama e a integração de refugiados.

Algumas séries policiais, transmitidas em canais temáticos, vão aos poucos buscar temas de difícil abordagem.

Um deles teve a coragem de tocar o mais ignóbil, vil e animalesco dos tráficos: o dos órgãos, mais concretamente o tráfico de crianças para remoção de órgãos que posteriormente alimentam o mercado negro.

Para além do facto em si, o que mais me chocou e indignou, foi que passados anos se assumisse por fim, que o tráfico de órgãos em contexto migratório existe na Europa e que nem sempre é fruto duma venda “voluntária“ para pagar uma passagem, um contrato ou uma vida.

O que a série que visualizei mostrou é que há crianças, sobretudo as desacompanhadas, as que ninguém reclamará, que são retalhada até à morte para “abastecer” este mercado.

É um negócio realmente rentável e o risco, quando comparado, é praticamente nulo. Senão vejamos: o doador, voluntário ou não, entra por seu próprio pé, legal ou ilegalmente, no país e cada um dá, no mínimo dois rins, dois pulmões, duas córneas, pele e finalmente coração.

Para o recetor do órgão pouco interessa de onde vem e em que condições. É também o desespero (e neste caso o dinheiro) a gritar mais alto.

Mas há outro mercado esse ainda mais hediondo se possível: aquele a que chamo de “recauchutagem”.

Grandes magnatas que vão substituindo “peças”, tentando dessa forma enganar a morte. Para eles quanto mais fresca for a carne melhor e dinheiro não é problema.

Naturalmente que estas remoções são feitas em clínicas clandestinas e não vale a pena dizer que Portugal está fora deste mercado porque não tem “a tecnologia suficiente para tal” – argumento já ouvido por mim. Como se se estivesse à espera que se recorresse ao SNS para uma coisa dessas! Muito gostamos nós de tapar o sol com a peneira.

O episódio de que falo (e já agora identifico a série que se intitula Alex Hugo) passa-se numa área remota entre a França e a Itália. Tão remota e bucólica que só se ouve o balir das cabras e o cantar dos riachos.

Mas se apurarmos os ouvidos há gritos neste paraíso.

Combater estes crimes só é eficaz quando houver a coragem de combater a origem da necessidade de fuga ou pelo menos torná-la segura e regular.

Até lá assistiremos como se fosse um filme de ficção, a uma realidade demasiado macabra. Antes mudar de canal e embrutecer com os BB desta vida.

About the Author

Manuela Niza
Manuela Niza é presidente do Sindicato dos Técnicos de Migração. É ainda técnica superior e professora convidada da Universidade Fernando Pessoa.

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