Argentina: neoliberalismo cultural está em sua fase final?

Proclamo, com a mais profunda convicção, que a recuperação da educação cooperativa é o primeiro acto na luta pela hegemonia cultural em nosso tempo.

Existem eventos políticos que, devido à sua aparente simplicidade, prenunciam transformações muito mais profundas do que aparentam à primeira vista. As palavras proferidas pelo governador de San Luis, Argentina, Claudio Poggi, durante a abertura do XXVII Encontro Nacional de Cooperativas e Mutualidades Escolares, constituem um desses eventos.

Quando afirmou: “Queremos compensar o tempo perdido, os 25 anos em que não fizemos isso”, referindo-se à falta de políticas educacionais cooperativas sustentadas na província, ele não estava apenas fazendo um anúncio administrativo. Ele estava, consciente ou inconscientemente, emitindo um julgamento histórico sobre um quarto de século de política educacional.

E essa afirmação merece ser analisada em sua totalidade.

Se a educação cooperativa não foi sistematicamente promovida durante vinte e cinco anos e hoje esse período é definido como “tempo perdido”, então a conclusão é incontornável: a exclusão da educação cooperativa das salas de aula foi um erro de política educacional.

A educação nunca é um fenómeno isolado. É o espaço onde toda sociedade reproduz, contesta ou transforma a sua cultura. Subjetividades, valores e formas de compreender a economia, a democracia e as relações humanas são formados ali.

Durante décadas, prevaleceu uma estrutura cultural que exaltava a competição em detrimento da cooperação, o individualismo em detrimento da construção coletiva e a eficiência administrativa em detrimento do desenvolvimento holístico dos cidadãos. Nesse contexto, a educação cooperativa foi marginalizada, minimizada ou simplesmente tornada invisível.

Não porque ela tivesse fracassado. Ela foi excluída por decisão política.

Paradoxalmente, hoje é um governador que reconhece que essa omissão significou a perda de vinte e cinco anos.

Não se trata de uma simples correção administrativa. É o reconhecimento de que uma parte significativa do sistema educacional falhou em transmitir valores fundamentais como apoio mútuo, responsabilidade compartilhada, governança democrática, solidariedade organizada e participação consciente.

É ainda mais significativo que Poggi tenha baseado a sua decisão nos efeitos pedagógicos observados nas cooperativas escolares: alunos que aprendem a se organizar, a respeitar diferentes responsabilidades, a trabalhar de forma associativa e a construir projectos comuns.

Os principais paradigmas históricos não desaparecem da noite para o dia. Eles começam a perder legitimidade quando deixam de oferecer respostas satisfatórias e são forçados a reivindicar justamente aquilo a que haviam sido relegados anteriormente.

Quando o próprio Estado admite que foi um erro ter marginalizado a educação cooperativa, abre-se uma fissura na arquitectura cultural que, durante décadas, subordinou a educação aos critérios do individualismo competitivo.

Por isso, afirmo que esse facto ultrapassa em muito as fronteiras de San Luis.

Estamos diante de um evento político cuja importância transcende uma província e reabre um debate nacional sobre o próprio significado da educação.

Não estou a afirmar que o neoliberalismo cultural desapareceu. Isso seria uma simplificação excessiva.

O que defendo é algo diferente, e talvez mais significativo: começou a reconhecer como necessárias aquelas ferramentas pedagógicas que ignorou ou relegou durante anos. E quando um paradigma precisa reabilitar aquilo contra o que lutou ou desprezou para responder às novas demandas sociais, este deixa de estar em expansão.

Portanto, a recuperação da educação cooperativa não é uma boa notícia apenas para os professores, alunos ou membros da cooperativa.

Representa o sintoma visível de uma transformação cultural que começa a ganhar força no campo educacional e que, como todas as transformações históricas, provavelmente se estenderá a toda a sociedade.

E, como acontece com todas as grandes transformações históricas, tudo começou onde o futuro de um povo é verdadeiramente construído: na educação.

Em fraternidade, um abraço cooperativo!

About the Author

Jose Yorg
José Yorg é educador e docente técnico em Cooperativismo, membro da Rede de Investigadores Latinoamericanos de Economia Social e Solidária (RILESS), que envolve universidades da Argentina, Brasil, Equador e México. Este argentino nascido em Assunción (Paraguay) desenvolve actividades na Tecnicoop, na província de Formosa, onde é também perito judicial técnico em Cooperativismo no Superior Tribunal de Justiça.

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