A passarinha
Epílogo (parte 2/2)
Por Vanda Azuaga *
Não aprendi o suficiente sobre o mundo das ciências, lá nos longínquos anos 70. Talvez um pouco mais sobre geologia (ainda sei quase toda a escala de Mohs, só me engasgo ali no feldspato, mas termino em beleza com o quartzo, topázio, corinto e diamante!). Aprendi muita coisa desinteressante e chata que já se varreu. Tenho pena de não ter aprendido mais música, por exemplo. E outros assuntos cuja ignorância tento agora colmatar, como quem aplica remendos num tecido roto. Filosofia, religião, botânica. Naquele tempo eu sabia encestar e sabia as regras do jogo; sabia demonstrar o teorema de Pitágoras (agora só sei com desenho), sabia demonstrar a fórmula resolvente, sabia conjugar os verbos em francês e as respectivas terminações (agora, o que sei de línguas é apenas a base para saber comunicar, sem a responsabilidade de não dar erros gramaticais). Sabia resolver problemas com torneiras a encher tanques e carros a andarem em sentidos contrários que se cruzavam no ponto A; resolvia todos os exercícios de álgebra do Palma Fernandes que já tinha sido do meu pai e sabia as capitais de países que já não existem. Resolvia problemas de fusos horários, num exercício fantástico de imaginação porque nunca tinha andado de avião e não compreendia como podia ser dia numa terra e noite na outra. Até que um dia, o meu pai pegou numa lanterna e numa laranja e fez-se luz na minha cabeça. Depois pegou noutro fruto qualquer e explicou-me o ciclo da lua. Mas só já bem adulta soube que a lua mostra sempre a mesma face.

Que fantástica época para viver! Saí do Porto, era meio da tarde, chovia e estava fresquito. Atravessei parte do Atlântico e foi sendo dia! O sol atrasava-se (eu sei, que é a Terra que se se atrasava!). E quando cheguei à Praia estavam vinte e tal graus. Quem imaginaria isto ser possível? E ao chegar, vislumbrar ainda com dia os recortes da costa e distinguir as montanhas, as praias, os portos? Que trabalho tiveram os primeiros marinheiros e cartógrafos para desenhar os mapas primitivos!
Regresso a casa a cogitar no tanto que não sei. E vem-me à memória uma cena: dois homens aproximam-se da mesa do restaurante onde eu estava com amigos, ali, quase em cima da água escura, com ondas sucessivas de areia preta que faziam mover um mar de algas. Sentam-se na mesa à minha frente. Falam em francês. O que fica de frente para mim terá uns cinquenta anos, é mulato e trouxe consigo uns ramos de uma planta qualquer. Talvez uma palmeira ou planta parecida, já sabem que botânica não é o meu forte. Vão conversando e bebem cerveja. E o homem saca de uma faquinha e começa a trabalhar as folhas. Não quero ser inconveniente e estar sempre a olhar, mas intriga-me o que estará a fazer. Vais-as virando e entrançando, com mestria. Quase não olha para o que faz, suponho que olha o rosto do seu companheiro. De uma das vezes que o observei o nosso olhar cruzou-se e sorri-lhe com olhos, mostrando que me interessava o que ele estava a fazer. Talvez lhe tenha sorrido com os lábios, meneado a cabeça em sinal de aprovação, ou arqueado as sobrancelhas num esgar interrogativo. Posso até ter acenado ou feito outro gesto, não sei. Não tenho espelhos para ver as caras que faço — posso apenas supor e explicar o que sentia: curiosidade.
O homem sorriu, isso sei. Não muito, apenas o suficiente para repuxar os lábios e enviar de volta o sorriso dos olhos.
A crioula que nos serve traz a travessinha com a mandioca frita para a mesa e o meu olhar abandona o processo criativo do homem e centra-se na beleza e sabor da mandioca bem tostadinha, com finas rodelas de cebola adocicada e de chouriça levemente picante. Mais uma cerveja para acompanhar e eis que o homem se aproxima da nossa mesa, e me oferece, com um sorriso, um pássaro feito com o entrançado das folhas. Abeira-se de mim e estende-me uma haste com um passarinho esverdeado na ponta.
Agradeço, e admiro-lhe a mestria. Parabéns! Que bonito!
Ele retira-se e continua a conversa, a cerveja e a sua arte. Passado um bocado, abeira-se de novo e traz outra passarinha para a minha amiga! Mais agradecimentos e elogios. Nova retirada e percebo que ele saiu da mesa e regressou com mais uma braçada de folhas para continuar.
Veio a comida, estava boa e a conversa também. Sobremesa, café e, entretanto, o sol abriu e a cerveja e o calor convidam a uma sesta na areia. O pior foi a onda que nos surpreendeu quando estávamos ali esticados, prestes a embalar no sono. Um grito do João arrancou-me já do portal dos sonhos. Molhou tudo! Num frenesim recuperamos mochilas e roupas, chinelos e toalhas e deslocamos as tralhas molhadas uns metros mais para cima. E, se não fosse a Leonor a lembrar-se, a minha passarinha tinha ficado para trás, espetada na areia…
Graças a ela, viajou na mochila e apesar de um pouco mais murcha e amassadita, repousa num vaso de zizis — de nome científico Zamioculcas zamiifolia (este nome impronunciável fui ver à internet), lembrando-me o dia em que “um desconhecido me ofereceu uma passarinha”, num impulse.

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