O cordão umbilical

Há dias vi um post em que alguém defendia que a educação de um povo se podia avaliar quando as pessoas devolvem o carrinho das compras ao lugar original, mesmo não sendo obrigadas. Atualmente já não há sequer a moeda a recuperar, pelo menos nos sítios que frequento. Nem aquela patelinha azul ou vermelha que a substituía e que se trazia pendurada no porta chaves ou no tablier do carro. E a propósito do arrumar dos carrinhos, dei por mim a pensar que há um tempo em que as mães sabem tudo. São elas que decidem (bem ou mal, nem questionamos), são elas que dizem “é por ali” e nós vamos — sem reparar que pelo outro lado também resultava e até era mais perto — são elas que sabem fazer as coisas que nós ainda não ousamos experimentar — conduzir, fazer de comer, fazer um pequeno conserto doméstico. Facilmente esquecemos que à medida que vamos aprendendo nós a decidir, a capacidade de decisão, de trabalho, de improvisação da nossa mãe desaparece. Não é de um dia para outro, vai sendo de mansinho. Mas há um dia em que a mãe se dá conta que o seu reinado acabou.

No meu caso, aconteceu num parque de estacionamento de um hipermercado. Tinha ido às compras com o meu filho mais velho, que devia ter uns dezoito ou dezanove anos. Até esse dia nunca tinha sentido de forma aguda a maioridade dele. Claro que ele já era adulto, já muito autónomo nas suas decisões, mas digamos que tinha sido um desligar tranquilo, pontuado ocasionalmente por algumas discussões sobre “o que se pode ou não, o que de deve ou não”. Via agradada o crescimento dele, a sua adultez responsável e ficava feliz pelo trabalho que tinha feito.

Nessa tarde, foi ele quem conduziu o carro, rumo ao supermercado. Eu ia ao lado, com a respiração um bocado contraída, sobretudo nas rotundas e cruzamentos. Mas ele tinha de praticar e eu mordia a língua para não interferir na sua condução ainda imatura. Estacionou, guardou a chave no bolso e entrámos os dois no estabelecimento. O tal clique de que eu falava deu-se no momento em que, depois das compras enfiadas na mala da minha velha kangoo bordeaux, o meu filho se virou para mim, de chave do carro na mão e exclamou: vai arrumar o carrinho! Fiquei perplexa.

Normalmente, seria eu a fechar a mala, ir para o lugar do condutor e iniciar a manobra, sempre vigiando se ele (ou as irmãs) iam em segurança devolver o carrinho, não fosse algum amalucado resolver acelerar no parque. Agora tinham-se invertido os papéis — agora era ele quem tinha força para pegar nos garrafões da água e os içar para a mala do carro, era ele quem olhava pelo retrovisor e girava o volante. E era eu quem, com alguma falta de jeito (e de prática), enfiava o cordão de metal dos outros carrinhos no meu carro vazio e recolhia a moeda, sem perceber que na verdade era o nosso cordão umbilical que se estava a esticar e a tornar cada vez mais débil.

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Vanda Azuaga
* Vanda Azuaga é mulher do norte, gosta de escrever e de mexer na terra. Adora colher tangerinas da árvore, tanques de pedra, manhãs de nevoeiro e cheiro a maresia.

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