Mutualismo, Banca Ética e Cooperativismo

Será do senso comum, que mutualismo, banca ética e cooperativismo, são coisas muito diferentes. Esse mesmo senso, admitiria que no entanto existe um fio condutor que unirá todas estas coisas.

A meio da primeira década do ano 2000, candidatei-me ao então Conselho Geral da Associação Mutualista Montepio, que era um órgão essencialmente consultivo e de apoio à gestão da Mutualista Montepio, numa lista independente, que tinha como sua principal bandeira, a banca ética. Foi uma “pedrada no charco” e se de fato não consegui a almejada eleição, tive um grande apoio, de algumas representações nacionais e internacionais da banca ética e muitos apoios pessoais, que se traduziram numa votação, com algum significado, sobretudo se consideramos os meios que dispunhamos relativamente as outras listas concorrentes. Na altura, muitos associados disseram-me que seria uma utopia transformar o Banco Montepio num banco ético. Concordei, mas de fato aquilo que pretendia, e o que é possível, é fazer aproximar o Banco Montepio da ética.

Mas situamo-nos. A Associação Mutualista Montepio tem diversos activos no seu grupo, entre estes, estão a cabeça, pela sua dimensão, o Banco Montepio e as Seguradoras Lusitania. A Mutualista tem a maioria dos capitais nestas empresas e no Banco Montepio, muito perto dos 100% do capital. Mas nas últimas décadas, o que tem os “acionista” mutualistas ganho com esta “hegemonia” no capital? Se nos detivermos no caso do Banco Montepio, para simplificar, o que ganharam os associados do Montepio em capitalizarem o Banco, aliás de um modo que desafia todos os princípios da segurança.

A realidade é que os associados mutualistas, “donos no banco”, cada vez menos benefícios tem. Mas não queria deter-me muito nesta falta de vantagens, mas sobretudo na conduta atual do Banco Montepio. Sejamos claros, é razoável e compreensível que um banco esteja no mercado e queira gerar lucros. Mas será compreensível que Banco Montepio, que até se intitula de banco mutualista, de banco do terceiro sector, etc. etc., tenha uma prática, em muitos aspectos, mais “agressiva” que a generalidade da chamada banca comercial?

Concretizando: ao nível de precário, o preçário do Banco Montepio não fica atrás dos restantes e excepções que possam distinguir, quer os associados da associação mutualista, quer as associações de solidariedade social, quer as cooperativas, deixaram de existir há muito. No relacionamento com os seus trabalhadores, o Banco Montepio, prima pelas piores práticas no mercado.

Na prática, o Banco Montepio, em vez de se aproximar dos associados mutualistas, tem se vindo a afastar, deixando espaço ao surgimento de novos actores e ao florescer de outros (veja-se o caso das Caixas de Crédito Agrícola), que paulatinamente vem ocupar o nicho que deveria ser do banco mutualista.

Na hora de mudança da administração do Banco Montepio, para além da necessária mudança das pessoas, é necessária a mudança na política do banco e nas atitudes do grupo. A administração da Associação Mutualista não pode deixar que o grupo continue a ser gerido de forma nada ética e com resultados medíocres.

About the Author

Manuel Ferreira
Manuel Ferreira acumula 40 anos de actividade profissional como quadro do Banco Montepio (áreas comercial, voluntariado empresarial, microcrédito e empreendedorismo), cumpriu mandato no Conselho Geral da Associação Mutualista Montepio, e hoje é membro da Assembleia de Representantes. Colabora ainda com diversas associações de defesa dos Direitos Humanos.

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