Por Inês Moreira dos Santos *
Num tempo em que a igualdade de género é reivindicada em campanhas, discursos e compromissos políticos, há ainda um longo caminho a percorrer no quotidiano das empresas e instituições. Mas há sinais de mudança. Em Portugal e além-fronteiras, começam a emergir locais de trabalho feministas — espaços que não se limitam à inclusão de mulheres, mas que integram, de forma estrutural, princípios de equidade, justiça e respeito pela diversidade.

Um local de trabalho feminista é mais do que um espaço onde as mulheres podem aceder a cargos de liderança. É um contexto onde se questionam as hierarquias tradicionais, se combatem as discriminações de género (explícitas ou subtis) e onde há políticas ativas para promover o bem-estar, a conciliação da vida pessoal e profissional, e a inclusão de todas as identidades de género.
Isso traduz-se, por exemplo, em medidas como:
● Licenças de parentalidade justas e partilhadas;
● Transparência salarial e auditorias regulares para eliminar disparidades;
● Horários flexíveis e o direito ao desligamento digital;
● Espaços seguros para denúncia de assédio e discriminação, com canais independentes e eficazes;
● Formação contínua em igualdade de género e liderança inclusiva;
● Representatividade nos cargos de decisão.
Algumas empresas e organizações em Portugal têm dado passos significativos. A cooperativa cultural Mala Voadora, no Porto, assumiu em 2023 um código interno baseado em princípios feministas, garantindo tempo remunerado para cuidados e participação em lutas sociais. Já a empresa tecnológica Talkdesk implementou políticas rigorosas de paridade salarial e oferece mentorias a mulheres. Na Administração Pública, o Município de Lisboa lançou um programa-piloto para integrar a perspetiva de género na avaliação de desempenho e na promoção de lideranças femininas.
Segundo dados da PORDATA, as mulheres em Portugal ganham, em média, menos 13% que os homens. Estão também mais representadas em empregos precários e em part-time, sobretudo quando se tornam mães. A pandemia da COVID-19 veio agravar desigualdades: foram as mulheres a assumir, em grande maioria, o cuidado dos filhos e familiares.
“É preciso mexer nos alicerces: na cultura interna, na redistribuição de poder e na escuta ativa de quem é sistematicamente silenciado.”
Num contexto de crise climática, precariedade e envelhecimento da população, pensar o futuro do trabalho é também pensar como tornar esse futuro mais justo e sustentável para todas e todos. O feminismo, neste sentido, não é apenas uma questão de justiça de género, mas uma proposta de transformação estrutural.
Nem tudo são avanços. Muitas organizações adotam discursos de igualdade apenas à superfície — o chamado “feminismo corporativo performativo”. Falam de empowerment feminino, mas mantêm estruturas rígidas, promovem a competitividade interna e desvalorizam o cuidado. Para que um local de trabalho seja realmente feminista, é preciso mexer nos alicerces: na cultura interna, na redistribuição de poder e na escuta ativa de quem é sistematicamente silenciado.
Os locais de trabalho feministas não são modelos fechados, mas práticas em constante construção. Exigem compromisso, reflexão crítica e vontade de mudar. Mais do que “empoderar” mulheres para se adaptarem a um sistema desigual, trata-se de transformar esse sistema — para que o trabalho, em todas as suas formas, seja uma experiência de dignidade, respeito e liberdade.

Em Portugal, as mulheres continuam a ganhar menos, a ocupar menos cargos de direção e a ser mais penalizadas pela maternidade. Dados do Eurostat mostram que, em 2023, a disparidade salarial entre homens e mulheres em Portugal era de 13,3%. Já o Relatório Anual sobre Igualdade Salarial por Género revela que, nas chefias de topo, as mulheres são apenas 33%. Para mudar este cenário, não basta garantir “oportunidades iguais” num quadro desigual. “A igualdade formal falha porque parte do princípio de que todas as pessoas partem do mesmo ponto”, explica a socióloga Ana Matos Pires, investigadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. “Um local de trabalho feminista reconhece as assimetrias históricas e procura corrigi-las com medidas concretas.”
Um local de trabalho feminista não é um espaço só para mulheres. É um espaço que questiona os modelos hierárquicos tradicionais, redistribui poder, valoriza o cuidado e integra diversas identidades e experiências.
Medidas comuns incluem:
● Licenças parentais partilhadas e incentivadas para homens;
● Avaliação de desempenho com critérios não penalizadores da maternidade;
● Horários flexíveis e semana de quatro dias;
● Recrutamento cego e transparência salarial;
● Protocolos eficazes de prevenção e denúncia de assédio;
● Representatividade nos processos de decisão;
● Cuidado com a linguagem, com a arquitetura dos espaços e com os tempos de trabalho.
Em Lisboa, a startup tecnológica SeedLab implementou em 2022 uma política de “salário justo” com auditorias externas e uma grelha salarial pública interna. “Sabemos que as discriminações salariais não se corrigem com boa vontade. Corrigem-se com transparência e fiscalização”, afirma Joana Ferreira, diretora de operações.
Na Administração Pública, a Câmara Municipal de Lisboa criou um grupo de trabalho para aplicar a perspetiva de género nas suas políticas internas. Segundo Patrícia Gonçalves, “o objetivo é garantir que a igualdade não se resume à campanha do Dia da Mulher. Está presente nos concursos públicos, nas avaliações, no uso do tempo, na relação com a cidade.”
A legislação portuguesa tem vindo a reforçar os mecanismos de igualdade no trabalho. A Lei da Igualdade Salarial (2019) obriga empresas com mais de 50 trabalhadores a disponibilizar mapas de pessoal com dados desagregados por género. Em 2022, foi aprovada a estratégia nacional para a igualdade entre mulheres e homens no trabalho. Mas a fiscalização continua frágil. Segundo a CITE, apenas uma minoria das empresas cumpre totalmente os critérios legais de igualdade. Os sindicatos têm exigido uma maior articulação entre as inspeções do trabalho e as políticas de igualdade.
Como resume a investigadora Ana Matos Pires: “Trabalho feminista é trabalho com tempo, com cuidado, com dignidade. É uma visão do futuro que pode ser vivida já, aqui e agora.”
Cinco princípios de um local de trabalho feminista
- Redistribuição do poder
Lideranças horizontais, partilha de responsabilidades, moderação rotativa em reuniões e inclusão de vozes sub-representadas nos processos de decisão. - Cultura de cuidado
Horários flexíveis, direito ao desligamento, valorização do trabalho de cuidado (parentalidade, doença, luto) como parte da vida laboral, e não como exceção. - Políticas de igualdade estruturais
Transparência salarial, quotas de género em cargos de chefia, recrutamento cego, critérios de avaliação equitativos e programas de mentoria. - Ambientes seguros e inclusivos
Protocolos claros contra assédio e discriminação, formação contínua em diversidade, uso de linguagem inclusiva e acessibilidade física e digital. - Escuta e transformação contínua
Espaços regulares de feedback, práticas de escuta ativa e uma cultura interna que admite erro, revê processos e aposta na formação ética e política.
Criar locais de trabalho feministas não é uma tarefa apenas das mulheres, nem das equipas de recursos humanos. É uma mudança estrutural, que exige reflexão interna, escuta ativa e coragem para rever modelos de poder.

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