Por Raquel Azevedo *
O percurso de Kleber Mendonça Filho é um dos mais consistentes e singulares do cinema contemporâneo brasileiro. Nascido no Recife, o realizador construiu uma obra profundamente enraizada no território urbano e social do Brasil, marcada por uma sensibilidade crítica que atravessa temas como memória, desigualdade, especulação imobiliária e as tensões entre passado e presente.

Antes de se afirmar como cineasta de longa-metragem, Kleber destacou-se como crítico de cinema e realizador de curtas, onde já explorava a relação entre espaço e narrativa. Essa base crítica influenciou fortemente a sua linguagem, visível na atenção ao som, à arquitetura e ao quotidiano como elementos estruturantes da dramaturgia.
O reconhecimento internacional chegou com O Som ao Redor (2012), um retrato inquietante da classe média recifense e das heranças coloniais que persistem no tecido urbano. Seguiu-se Aquarius (2016), protagonizado por Sônia Braga, que se tornou um símbolo de resistência cultural e política, ao abordar a luta de uma mulher contra a pressão imobiliária. Em Bacurau (2019), co-realizado com Juliano Dornelles, Kleber expandiu sua linguagem para um território mais alegórico e distópico, mantendo, contudo, a crítica social afiada.
O seu mais recente filme, Retratos Fantasmas (2023), marca um ponto de inflexão na sua filmografia. Trata-se de uma obra híbrida entre documentário e ensaio pessoal, onde o realizador revisita a cidade do Recife a partir das salas de cinema que marcaram a sua formação. O filme constrói uma arqueologia afetiva dos espaços de exibição, muitos deles desaparecidos, transformados ou esquecidos, revelando como o cinema molda não apenas espectadores, mas também cidades e memórias coletivas.
Em Retratos Fantasmas, Kleber Mendonça Filho abandona parcialmente a ficção tradicional para mergulhar numa narrativa íntima e reflexiva. A sua própria casa, antigos cinemas de rua e imagens de arquivo tornam-se protagonistas de uma investigação sensorial sobre o tempo. O filme dialoga com a ideia de fantasma não apenas como algo assombrado, mas como vestígio — aquilo que permanece mesmo após o desaparecimento físico.
A dimensão política, sempre presente na obra do realizador, surge aqui de forma mais subtil, mas igualmente poderosa. Ao documentar o desaparecimento das salas de cinema, Kleber expõe transformações urbanas ligadas ao capitalismo, à gentrificação e à perda de espaços culturais. O cinema, neste contexto, é simultaneamente objeto e ferramenta de resistência.
O percurso de Kleber Mendonça Filho revela um autor comprometido com a construção de uma linguagem própria e com a reflexão crítica sobre o seu tempo. A sua filmografia não apenas retrata Brasil contemporâneo, mas também questiona as formas como habitamos o espaço, a memória e a história.
Com Retratos Fantasmas, o realizador reafirma a sua capacidade de reinventar-se, propondo um cinema que é, ao mesmo tempo, pessoal e universal — um cinema que observa, escuta e preserva aquilo que insiste em não desaparecer.

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