As iludências aparudem

Quando eu era miúda lembro-me de perguntar ao meu pai porque havia bolas penduradas nos fios, lá bem alto. Na minha cabeça fantasiosa, algum excelente jogador de futebol teria conseguido “pendurá-las” nos fios da eletricidade e aí tinham ficado para sempre. Um pouco como as sapatilhas penduradas em fios ou em semáforos, que, segundo uma vez o meu filho me explicou, assinalavam lugares onde se traficava droga.

A resposta dele foi que “eram para avisar os aviões”. Claro que não me convenceu! Os aviões voavam tão mais alto e aquelas bolas alaranjadas ficavam alto, sim, mas não tão alto como as nuvens e o espaço dos aviões! E eu continuei a olhar as bolas sobre o rio Douro e a imaginar pontapés extraordinários, que teriam de ser de rugby, mas nessa época eu não sabia o que isso era, e também não se ouvia falar em helicópteros. Por isso, durante muitos anos o meu pequeno mito urbano subsistiu. E o das sapatilhas também.

Outros mitos foram caindo, como o que dizia que os licranços tinham peçonha. Um dia, no Gerês, o meu filho agarrou um destes bichinhos com as mãos nuas e veio mostrar-mo, muito entusiasmado. Gritei-lhe para o largar, que fazia mal (…a ele, não me preocupei com o que o animal sentiria ao estar preso!). Mas já nessa altura, mesmo criança, ele sabia tudo sobre bichezas e garantiu-me que não era uma cobra pequena, era um pequeno lagarto sem patas e sem pálpebras, inofensivo. Convenceu-me.

Mas é assim, nem tudo o que parece é. A minha mais recente lição neste campo das “ideias pré feitas” aconteceu há apenas umas semanas, num pequeno restaurante de bairro. Já lá tinha ido umas três vezes e sempre tinha sido recebida por uma senhora brasileira, magrinha, com um turbante oncológico que era a dona do espaço e que também cozinhava. Era simpática, a comida tardava um bocadinho porque, na maioria das vezes, ela estava sozinha na cozinha e preparava tudo na hora. Desenvolvi por ela um sentimento carinhoso, a que não era alheia a sua condição de saúde. Da última vez que lá fui, deu para conversarmos um bocadinho. Ela aproximou-se da mesa e perguntou se estava tudo bom. A comida estava excelente como habitualmente e eu perguntei se ela sempre tinha sido cozinheira. Nem sempre, tinha feito um curso universitário sobre gastronomia, depois tinha feito várias formações sobre alimentação saudável. Estava em Portugal já há vários anos, já tinha tido outro restaurante maior e agora vinha a dedicar-se a este espaço, mais pequeno, e que lhe dava menos trabalho e responsabilidade. E a doença, arrisquei perguntar, quando achei que já tínhamos atingido uma proximidade que o permitia, sem ser demasiado invasiva.

Ah, exclamou rindo, já passou! Correu tudo bem, no IPO foram fantásticos comigo. Ainda bem, comentei. Mas… ainda é recente, não?

E então, perante a minha curiosidade e embaraço, ela retirou o turbante e mostrou o cabelo, escuro e forte, que lhe preenchia a cabeça. Desculpe, disse eu a achar que estava cada vez a ser mais parva e desajeitada, mas como a vi assim, pensei…

Então ela explicou: quando eu estive em tratamento usava turbante e uma outra senhora deu-me também alguns. Tenho de várias cores. Agora continuo a usa-los na cozinha, prendem melhor o cabelo do que as toucas e também me recordam a sorte que tenho em ter superado o cancro! E quando tenho ajudantes, elas também usam.

Depois, retirou-se e regressou trazendo uma foto da cozinha. Olhe, aqui sou eu e as minhas filhas, todas de turbante!

Despedi-me dela com dois beijinhos e um abraço. E vim pela rua fora a pensar em duas coisas, naquilo que acabava de aprender e onde tinha deixado o carro estacionado.

About the Author

Vanda Azuaga
* Vanda Azuaga é mulher do norte, gosta de escrever e de mexer na terra. Adora colher tangerinas da árvore, tanques de pedra, manhãs de nevoeiro e cheiro a maresia.

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