Por José Yorg, o cooperário *
“A IA não mudará o mundo de forma justa se o controle estiver concentrado em mãos exploradoras.”
Na verdade, a inteligência artificial não mudará o mundo. A questão crucial é quem controla essa mudança.
Rebecca Harvey, editora-chefe do thenews.coop, enviou à TECNICOOP uma série de relatórios estrategicamente valiosos. Entre eles, um em particular chamou nossa atenção: “A IA vai mudar o mundo. As cooperativas podem dar o controle às pessoas?”, um relatório resultante da recente conferência do Consórcio de Cooperativismo de Plataforma, realizada em Istambul.

O debate gerou conclusões tanto perturbadoras quanto reveladoras. A corrida desenfreada para desenvolver inteligência artificial está a gerar um alarme generalizado sobre o seu impacto no consumo de energia, nas mudanças climáticas, no emprego, na educação, no conhecimento e na democracia. Tudo isso ocorre em paralelo a uma crescente concentração de poder e riqueza nas mãos de algumas poucas corporações de tecnologia, com o risco adicional de consolidar um aparato de vigilância sem precedentes.
A falácia do fetichismo tecnológico
Nossa conclusão, após analisar essas contribuições, é clara: a IA não transformará o mundo de forma justa se seu controle permanecer concentrado nas mãos de pessoas inescrupulosas. O facto de uma tecnologia ser poderosa não implica, por si só, em melhores condições de vida para a maioria.
Essa afirmação rompe com o fetichismo tecnológico predominante. A história é conclusiva: nem a máquina a vapor, nem a electricidade, nem a internet redistribuíram a riqueza automaticamente. Todas elas aumentaram a riqueza de poucos até que emergisse um poder social e político capaz de desafiar seu controle e orientar seu uso.
A variável decisiva nunca foi a inovação em si, mas sim a busca por uma correlação de forças.
Cooperativismo: não uma utopia, mas uma estratégia para o poder
A inteligência artificial, sem poder popular organizado, não emancipa: ela subordina. Sem disputa política, a IA não corrige desigualdades: ela as optimiza.
Nesse contexto, os modelos cooperativos não são uma fantasia idealista ou um romantismo económico. São, na verdade, uma estratégia política e práctica para democratizar o uso da IA e empoderar comunidades, trabalhadores e colectivos.
Mas aqui reside o cerne do problema: boas intenções não bastam. Ética não basta. Eficiência técnica não basta.
Para que a IA cooperativa tenha um impacto real, é essencial — e inegociável — construir poder político cooperativo, custe o que custar!
Sem poder político, não existe IA cooperativa
Sem poder político, as cooperativas são relegadas à marginalidade. Dependem de infraestrutura externa, operam sob regulamentações concebidas para monopólios e, mais cedo ou mais tarde, acabam subordinadas a grandes plataformas tecnológicas.
Construir poder político cooperativo na era da IA implica, no mínimo:
- Poder económico organizado: federações de cooperativas de dados, infraestrutura tecnológica própria e verdadeira intercooperação;
- Poder cultural: desafiar o senso comum tecnocrático e formar pessoal técnico com consciência social;
- Poder institucional: influência nas leis, nas políticas públicas e nos sistemas de compras estatais;
- Poder político explícito: assumir o cooperativismo como um sujeito político, não como um simples gestor eficiente ou como uma economia marginal.
O futuro não é pedido, ele é construído
A inteligência artificial não será justa por causa de seu poder técnico, mas sim por causa do poder político daqueles que a controlam.
O movimento cooperativo não deve pedir um lugar à mesa digital. Ele deve construir o poder necessário para desenhar a mesa, as regras e o futuro!
Em fraternidade, um abraço cooperativo!

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