“Repara se será mal o trabalho, que precisam de pagar para que o faças.”
Facundo Cabral, cantor e autor argentino
Por José Yorg, o cooperário *
Na Argentina, a Reforma Trabalhista foi aprovada. Não se trata apenas de mais uma lei, nem de uma discussão técnica sobre indenização por demissão ou acordos colectivos. O que foi aprovado sob o nome de “reforma trabalhista” é algo muito mais profundo, sejamos directos: a legalização de um novo paradigma cultural.

A democracia moderna nasceu ligada ao trabalho como um direito. O trabalhador não era uma mercadoria: era um sujeito político. Segurança no emprego, negociação colectiva e protecção social não eram concessões: eram a base material que sustentava a legitimidade democrática.
Mas esse mundo já não existe
Desde os anos setenta do [século XX], o capitalismo industrial foi substituído por uma lógica financeira, global e deslocalizada. O poder já não reside na fábrica, mas na dívida, nos mercados, nos algoritmos que gerem expectativas e disciplinam sociedades inteiras. Nesse novo esquema, o trabalhador estável é um obstáculo; o trabalhador flexível, endividado e fragmentado é funcional.
A reforma trabalhista não cria essa realidade; ela a consagra
O problema é mais sério do que parece: as pessoas estão debatendo a lei como se ainda vivessem no século XX. Como se a disputa fosse entre o empregador e o operário. Mas a transformação já ocorreu.
Hoje, o poder não precisa de reprimir em massa, embora o faça; precisa de que o trabalhador aceite a sua precariedade como uma condição natural.
E quando a precariedade se torna a norma legal, a democracia deixa de ser um sistema para expandir direitos e se torna um mecanismo para gerir ajustes.
A democracia não morre quando as pessoas param de votar. Ela morre quando perde a sua substância social. A reforma trabalhista matou a democracia. Será que o povo ainda não percebeu isso?
Talvez seja por isso que o evento mais perturbador não seja a reforma em si, mas a naturalidade com que é aceite. Como se fosse uma modernização inevitável. Como se a história tivesse decidido que o trabalho não é mais o princípio organizador da comunidade.
A questão que permanece em aberto é incómoda: pode a democracia sobreviver quando o trabalho deixa de ser um direito e se torna uma mera variável de custo?
Talvez as pessoas ainda não tenham percebido. Mas transformações culturais profundas não fazem barulho imediato. Elas se consolidam. E quando são percebidas, as regras do jogo já mudaram.

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