Tangerina

Os nossos encontros são mágicos e fugazes. Mal nos tocamos, o tempo começa a desaparecer até ao momento em que, num último olhar, dizemos, até logo. Até logo, até um dia, até uma semana, até sempre. Nunca o sabemos.

Chegaste à minha vida por um mero acaso, eras casado na altura. Com filhos. Nem fazias o meu “tipo”. Na altura eu ainda acreditava que existem “tipos” …hoje sei que a atração que começamos a sentir um pelo outro nada tem a ver com tipos, ou estéreo(tipos).

Foi singular a forma como me fui apaixonando por ti, detectando pequenos gestos e atitudes que contrariavam o teu estado civil e condição. A tua mulher foi sempre simpática comigo, era e é ainda uma bela mulher, morena, baixinha e roliça, sempre muito bem arranjada.

Notava-se que ela te amava, mas nunca tive a certeza se sentias o mesmo por ela e tive muito receio de avançar. Tive medo de cair no ridículo, de não te ter interpretado correctamente. À noite masturbava-me a pensar em ti. O meu coração batia mais forte naquelas tardes em que, “por acaso”, nos encontrávamos e me convidavas para beber um copo. Amava-te desesperadamente, sonhava contigo, dia e noite. Tornou-se obsessivo.

Naquele dia convidaste-me a ir dar uma volta no teu carro, um híbrido que tinhas adquirido recentemente. Cheirava a novo, como todos os carros novos. E aquele cheiro inebriava-me na tarde de sol e confundia-me os sentidos. Ao mesmo tempo, fazia.me sentir confiante.

Vamos ver o mar, disseste. E foi ali, na praia do aterro, que a tua mão tocou pela primeira vez a minha e eu soube quem tu eras, verdadeiramente. Ali nos beijámos e abraçámos no desconforto do pequeno habitáculo. Aí te sussurrei que te amava e te ouvi suspirar no meu pescoço. Aquela praia, aquele parque, tornou-se o nosso ponto de encontro. Quando entardecia, às vezes quando amanhecia, e tu saías cedo de casa para, às escondidas, viveres o teu amor secreto.

Passo a língua na tua barba e todo tu me sabes. Saboreio-te, cheiro-te e sinto-te. Ainda hoje, quando sinto o cheiro de um carro novo, a tua imagem volta a mim, tão nítida que dói.

Armando, doce nome que soa a tangerina, como no poema de Eugénio de Andrade.

Nunca estive com ninguém tão doce como tu, que se entregasse tanto, que se encaixasse tão bem no meu corpo. O meu “portefólio”, como costumávamos brincar, não é grande, o teu também não era! Eu fui o teu primeiro amante e sei que te amei demasiado. Foram tardes e tardes de amor escondido, amor gay, amor de homem por homem. Que interessa isso? Era Amor!

Sei hoje que a minha missão foi ajudar-te a conheceres-te melhor. Descobriste o que andavas a esconder há muito tempo. Teve um tempo, um propósito. Ficou a doce memória da tua barba bem aparada, a picar na minha boca quando deslizava para o teu pescoço esguio. Tangerina, tangerina.


FRUTOS

About the Author

Vanda Azuaga
* Vanda Azuaga é mulher do norte, gosta de escrever e de mexer na terra. Adora colher tangerinas da árvore, tanques de pedra, manhãs de nevoeiro e cheiro a maresia.

2 Comments on "Tangerina"

  1. Muito bom. Gosto.

Leave a comment

Your email address will not be published.


*