São João, o meu

Não cresci a festejar o S. João. Aliás, na minha infância e juventude, os meus pais quase fugiam das festas da aldeia, em agosto e, como não havia tradição familiar, nem os santos populares se festejavam. Festejávamos o aniversário da minha mãe, a 23 de junho, com um bolo que, quando fiquei mais crescida fazia com todo o cuidado e esperando acertar com o calor da patusca para não ficar queimado. Usava a velha batedeira moulinex, já de um branco desbotado pelo tempo e em que custava a enfiar as pás. A bacia de plástico fazia parte de um grupo de três, que encaixavam umas nas outras e decerto que, pelo uso, comemos algum micro plástico azulado. Adorava rapar a tigela com o salazar, que também já tinha tido melhores dias, e, no fim de tudo, meter a língua pelo meio das pás, onde nenhum utensílio chegava.

A forma tinha de ser untada com muito cuidado e bem polvilhada com farinha. Dizia-se farinha triga, não farinha de trigo. E pó Royal, não dizia fermento. A patusca estava pousada no balcão de mármore, do lado esquerdo da banca, onde uma mancha teimava em não sair, após um antigo derrame de vinagre. Ligava-se à tomada, via-se a resistência a ficar rubra e depois metia-se a forma com cuidado e tapava-se com a tampa de metal onde o óculo já rachado permitia vigiar a cozedura. Nada de 180 graus em forno pré aquecido e ventilado! Se algo havia de rigoroso neste processo culinário era a pesagem dos ingredientes numa balança com uma coisinha de correr, onde acertávamos as pontas para ter o peso desejado.

Só comecei a festejar o S. João quando vim estudar para o Porto. E a primeira vez… detestei! Demorei imenso tempo para conseguir arranjar autocarro para ir ter com os meus amigos, deparei-me com um montão de pessoas anónimas que me batiam na cabeça com martelos estridentes e, pior ainda, me faziam passar pelo nariz uma flor de alho porro ou, na altura ainda havia disso, um ramo de erva cidreira. As minhas alergias vieram todas ao de cima, passei a noite a espirrar, chateada e com vontade de regressar a casa, espantada com aquela multidão que se estava a divertir à brava. Só malucos, pensava.

Anos passaram e aprendi a gostar do S. João. Tomar um anti-histamínico ajudou. Fui-me enraizando nesta celebração tão nossa, tão doida, mas também tão ancestral. Fui lendo sobre esta tradição, sobre o solstício, sobre as sete ervas, sobre os celtas. E hoje, é, sem dúvida a minha festa preferida. A magia dos balões a subir no céu, o cheiro das sardinhas que se entranha pela madrugada fora, o riso dos amigos e a cumplicidade quando o balão finalmente começa a puxar!

Hoje fui comprar sardinhas ao hipermercado, vou fazer a festa aqui em casa. Na peixaria, era uma animação! As senhoras iam dançando e servindo os clientes que, ao aguardar a sua vez e de senha na mão, também iam dando um arzinho da sua graça, fosse com o pé, com a cabeça ou com uma mãozinha a bater discretamente e ritmadamente na coxa.

Estranhei o “musicol” — era um conhecido cantor brasileiro que numa instalação sonora invisível incitava, com o seu repertório, as pessoas a levantar as mãos, a mexer as ancas, enfim, a abanar o esqueleto. As músicas tinham as rimas previsíveis e a qualidade que cada um lhes quiser atribuir. Eram animadas, lá isso eram. Mas, posso garantir que, para mim, as letras do Quim Barreiros ou da Rosinha são mais interessantes e adequadas a esta festa. Enfim, até o S. João já não é o que era. Fruto da globalização? Talvez.

Como se diz por cá, “continuação”. Permitam-se ser orvalhados, martelados e felizes.

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Vanda Azuaga
* Vanda Azuaga é mulher do norte, gosta de escrever e de mexer na terra. Adora colher tangerinas da árvore, tanques de pedra, manhãs de nevoeiro e cheiro a maresia.

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