Quando o dono morde o cão: A farsa da moralidade europeia

Há qualquer coisa de profundamente cínico, para não dizer nauseabundo, na súbita crise de nervos que tomou conta das chancelarias europeias nas últimas duas semanas. De um dia para o outro, a elite da União Europeia e os governos bem-mandados do Velho Continente parecem ter descoberto a existência do Direito Internacional. Com um atraso lamentável, deram-se conta de que a soberania das nações devia ser protegida e que as ameaças imperialistas são inaceitáveis.

O motivo deste repentino despertar moral não foi o sofrimento de nenhum povo. Foi apenas o facto de Donald Trump ter decidido que quer comprar a Gronelândia e, perante a recusa, ameaçar a Europa com tarifas punitivas. Agora que lhes tocam na carteira e no mapa, a burguesia europeia rasga as vestes. A propaganda oficial, que até ontem nos vendia a submissão aos Estados Unidos como o único caminho possível, inverteu subitamente a marcha para nos convencer de que a Europa é um bastião de resistência moral.

Esta elite, que agora tenta mobilizar a opinião pública fazendo-se de vítima, tem uma bússola moral avariada. Se condenamos a invasão da Ucrânia em nome da soberania, temos de ser consequentes. Mas a coerência não mora nos palácios governativos europeus, oficiais ou oficiosos.

Onde estava esta defesa intransigente da legalidade internacional quando, no passado dia 3 de Janeiro, os Estados Unidos violaram grosseiramente o território da Venezuela num acto de puro gangsterismo de Estado para sequestrar o Presidente Maduro? O silêncio foi total. Mas pior do que o silêncio é a cumplicidade. Onde tem estado a Europa enquanto Israel, com o apoio activo de Washington, incendeia o Médio Oriente?

Quando as bombas caíram sobre o Líbano e a Síria, ou quando os Estados Unidos e Israel bombardearam conjuntamente o Irão numa agressão ilegal, a União Europeia calou-se. Perante o genocídio em Gaza, a elite europeia nem sequer teve a decência de suspender o Acordo de Associação com Israel. Mantiveram o negócio habitual com quem massacra civis. E agora, perante o bloqueio à Venezuela ou as novas ameaças a Cuba e ao México, assobiam para o lado. Para eles, a soberania dos povos latino-americanos ou árabes não vale um cêntimo. Só quando o bully americano ameaça os lucros das empresas europeias é que descobrem que a força não pode substituir o direito.

É o maior investimento militar desde a Guerra Colonial. E a forma como está a ser feito é um escândalo democrático: sem concurso público, sem escrutínio e sob a capa do segredo.

Por cá, em Portugal, a situação é, como tem sido nas últimas décadas, cobarde, degradante e opaca. Enquanto o Governo finge preocupação com a instabilidade internacional, sobretudo na “sua” Europa, avança pela calada com um investimento obsceno de 5,8 mil milhões de euros em armamento. Leram bem. É o maior investimento militar desde a Guerra Colonial. E a forma como está a ser feito é um escândalo democrático: sem concurso público, sem escrutínio e sob a capa do segredo.

Ninguém sabe exactamente o que se está a comprar, mas sabemos quem ganha. A exigência técnica de que o material seja “NATO-fit” garante que os contratos milionários acabem nas mãos dos gigantes da indústria de armamento americana e dos seus intermediários. Estamos a tirar 5,8 mil milhões da nossa economia, de quem ganha uma miséria, para financiar a indústria da morte de quem nos ameaça com tarifas.

Este saque aos cofres públicos conta com a conivência de todo o arco do poder. O PS, o PSD, o CDS e a IL dizem-nos sempre que não há dinheiro suficiente para salvar os serviços públicos cada vez mais degradados, que não é possível aumentar salários ou que a crise da habitação se resolve sozinha. Mas para estes negócios de armas, o dinheiro aparece sempre, como por magia. E, claro, não podemos esquecer o papel vergonhoso do Chega. Os autoproclamados patriotas, que marcaram presença na primeira fila da tomada de posse de Trump e o aplaudem delirantemente, estão agora mudos. O seu ídolo está a atacar a economia portuguesa e a soberania europeia, mas a sua vassalagem ideológica impede-os de defender o interesse nacional. André Ventura foi a Washington bater palmas a quem nos quer esmagar. São patriotas de trazer por casa: leões com os fracos, mas caniches com os poderosos.

É fundamental que quem trabalha perceba o jogo que está a ser jogado. Esta elite política e económica não nos representa. Quando as elites burguesas europeias ou os governantes portugueses falam em defender a soberania, estão apenas a defender os seus negócios. Os interesses deles não são os nossos; aliás, são opostos. Querem usar o povo como massa de manobra para proteger os seus lucros, tal como o usam para pagadores das suas guerras e das suas crises. A história ensina-nos uma lição: não esperemos que a solução venha dos que criaram o problema. Ninguém nos virá salvar. Só o povo trabalhador libertará o povo trabalhador. Aqui e além-fronteiras.

About the Author

Victor Pinto
Nascido 1976, na invicta cidade do Porto. Professor de português e inglês no ensino secundário. Assessor parlamentar na AR entre 2015 e 2020. Candidato pelo BE à Câmara Municipal da Póvoa de Varzim em 2013 e 2017. Criador e colaborador do blogue “O Navio de Espelhos” e membro fundador da Plataforma por um Partido dos Trabalhadores.

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