Por Victor Pinto *
Há qualquer coisa de profundamente cínico, para não dizer nauseabundo, na súbita crise de nervos que tomou conta das chancelarias europeias nas últimas duas semanas. De um dia para o outro, a elite da União Europeia e os governos bem-mandados do Velho Continente parecem ter descoberto a existência do Direito Internacional. Com um atraso lamentável, deram-se conta de que a soberania das nações devia ser protegida e que as ameaças imperialistas são inaceitáveis.

O motivo deste repentino despertar moral não foi o sofrimento de nenhum povo. Foi apenas o facto de Donald Trump ter decidido que quer comprar a Gronelândia e, perante a recusa, ameaçar a Europa com tarifas punitivas. Agora que lhes tocam na carteira e no mapa, a burguesia europeia rasga as vestes. A propaganda oficial, que até ontem nos vendia a submissão aos Estados Unidos como o único caminho possível, inverteu subitamente a marcha para nos convencer de que a Europa é um bastião de resistência moral.
Não nos deixemos enganar: esta indignação é uma farsa absoluta.
Esta elite, que agora tenta mobilizar a opinião pública fazendo-se de vítima, tem uma bússola moral avariada. Se condenamos a invasão da Ucrânia em nome da soberania, temos de ser consequentes. Mas a coerência não mora nos palácios governativos europeus, oficiais ou oficiosos.
Onde estava esta defesa intransigente da legalidade internacional quando, no passado dia 3 de Janeiro, os Estados Unidos violaram grosseiramente o território da Venezuela num acto de puro gangsterismo de Estado para sequestrar o Presidente Maduro? O silêncio foi total. Mas pior do que o silêncio é a cumplicidade. Onde tem estado a Europa enquanto Israel, com o apoio activo de Washington, incendeia o Médio Oriente?
Quando as bombas caíram sobre o Líbano e a Síria, ou quando os Estados Unidos e Israel bombardearam conjuntamente o Irão numa agressão ilegal, a União Europeia calou-se. Perante o genocídio em Gaza, a elite europeia nem sequer teve a decência de suspender o Acordo de Associação com Israel. Mantiveram o negócio habitual com quem massacra civis. E agora, perante o bloqueio à Venezuela ou as novas ameaças a Cuba e ao México, assobiam para o lado. Para eles, a soberania dos povos latino-americanos ou árabes não vale um cêntimo. Só quando o bully americano ameaça os lucros das empresas europeias é que descobrem que a força não pode substituir o direito.
É o maior investimento militar desde a Guerra Colonial. E a forma como está a ser feito é um escândalo democrático: sem concurso público, sem escrutínio e sob a capa do segredo.
Por cá, em Portugal, a situação é, como tem sido nas últimas décadas, cobarde, degradante e opaca. Enquanto o Governo finge preocupação com a instabilidade internacional, sobretudo na “sua” Europa, avança pela calada com um investimento obsceno de 5,8 mil milhões de euros em armamento. Leram bem. É o maior investimento militar desde a Guerra Colonial. E a forma como está a ser feito é um escândalo democrático: sem concurso público, sem escrutínio e sob a capa do segredo.
Ninguém sabe exactamente o que se está a comprar, mas sabemos quem ganha. A exigência técnica de que o material seja “NATO-fit” garante que os contratos milionários acabem nas mãos dos gigantes da indústria de armamento americana e dos seus intermediários. Estamos a tirar 5,8 mil milhões da nossa economia, de quem ganha uma miséria, para financiar a indústria da morte de quem nos ameaça com tarifas.
Este saque aos cofres públicos conta com a conivência de todo o arco do poder. O PS, o PSD, o CDS e a IL dizem-nos sempre que não há dinheiro suficiente para salvar os serviços públicos cada vez mais degradados, que não é possível aumentar salários ou que a crise da habitação se resolve sozinha. Mas para estes negócios de armas, o dinheiro aparece sempre, como por magia. E, claro, não podemos esquecer o papel vergonhoso do Chega. Os autoproclamados patriotas, que marcaram presença na primeira fila da tomada de posse de Trump e o aplaudem delirantemente, estão agora mudos. O seu ídolo está a atacar a economia portuguesa e a soberania europeia, mas a sua vassalagem ideológica impede-os de defender o interesse nacional. André Ventura foi a Washington bater palmas a quem nos quer esmagar. São patriotas de trazer por casa: leões com os fracos, mas caniches com os poderosos.
É fundamental que quem trabalha perceba o jogo que está a ser jogado. Esta elite política e económica não nos representa. Quando as elites burguesas europeias ou os governantes portugueses falam em defender a soberania, estão apenas a defender os seus negócios. Os interesses deles não são os nossos; aliás, são opostos. Querem usar o povo como massa de manobra para proteger os seus lucros, tal como o usam para pagadores das suas guerras e das suas crises. A história ensina-nos uma lição: não esperemos que a solução venha dos que criaram o problema. Ninguém nos virá salvar. Só o povo trabalhador libertará o povo trabalhador. Aqui e além-fronteiras.

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