Como de uma iogurteira saltei para a caixa de madeira e daí para mim

Quando os miúdos eram pequenos — e eu era uma jovem mãe dedicada e cheia de energia — usava uma iogurteira para providenciar um alimento rico em cálcio e com menos químicos e açúcares que os presentes nos iogurtes de supermercado. Uma espécie de panela que ficava toda a noite ligada à eletricidade, com uns seis ou oito copinhos de vidro lá dentro, devidamente tapados e cheios de uma mistura de leite e fermento que eu preparava com algum cuidado. Umas vezes saiam melhor, outras pior; por vezes ficavam muito líquidos, mas, como se comiam na mesma, nunca cheguei a comprar leite em pó para os engrossar como aconselhavam no livrinho de instruções na secção das dúvidas e sugestões (lido na diagonal quando comecei a usar o equipamento e que rapidamente ficou perdido no fundo de uma gaveta, repleta de talheres e migalhas de pão). Leite em pó é coisa que sempre me enjoou, pelo cheiro, e também por isso resisti a aprimorar a receita.

Com o tempo, os copinhos foram-se partindo e a minha determinação em fazer comer coisas saudáveis aos meus filhos não resistiu ao marketing de suissinhos e companhia, incluindo iogurtes com Pintarolas, aloé vera e os “verdadeiramente” líquidos — não por falta de competência da cozinheira. E a iogurteira acabou no sítio das coisas inúteis, na última prateleira da despensa, até ao dia em que, investida de novo de uma energia capaz de limpar e arrumar a casa toda de fio a pavio, foi parar ao lixo. E lixo mesmo, creio. Na altura não se fazia a separação de resíduos (exceto o vidro) e, muito menos, destes objetos. Mas mudam-se os tempos, e, anos depois, ofereci à minha filha média uma iogurteira novinha em folha! As preocupações com a alimentação são cada vez maiores entre aqueles que têm o privilégio de ter comida e informação e por isso lá fomos pesquisar preços e modelos. Aparentemente é igual à de outros tempos, apenas as tampinhas dos frascos são coloridas. O leite vai ser diferente, nada de leite de bicho, vai usar leite de soja e fermento vegetal. Mas o processo é idêntico, deixa-se ficar sempre um iogurte antigo para servir de fermento aos próximos.

O iogurte que eu sou recebeu o fermento dos pais, que o receberam dos pais, que o receberam dos pais… e por aí fora. Um bocadinho de mim ainda é da minha bisavó Fernanda, ou do meu bisavô Fernando, que por acaso eram primos, o que pode explicar que a mistura de fermentos deu lugar a um iogurte com as minhas características, digamos, estranhas, de quem mistura os genes com fermentos. No fundo a questão é, quem sou? 40 semanas a amornar no ventre materno, fruto de um fermento complexo e antigo, a ganhar consistência para depois me aguentar com solidez na vida. Mas não usaram leite em pó e saí a boiar num líquido incolor, prestes a desfazer-me quando me agitam em demasia. A cozinheira não seguiu a receita e saiu um iogurte não conforme, como se diz agora. E com um prazo de validade alargado, que tive o fado de nascer num país desenvolvido onde a esperança média de vida ainda está a aumentar! Mas fosse o fermento um niquinho diferente — bastava só um ligeiro outro contributo microbiano! — e poderia “Eu” ter saído completamente diversa. Não quero dizer apenas a cor da tampa, rosa, azul ou violeta — em homenagem aqueles que não têm género definido. Não, a composição, a solidez, a validade tudo seria diferente… E agora olho as caixas de madeira e marfim que guardaram óculos e rendas e agulhas e cachimbos e pergunto-me: quem sou eu? De que mistura de fermentos sou feita?

About the Author

Vanda Azuaga
* Vanda Azuaga é mulher do norte, gosta de escrever e de mexer na terra. Adora colher tangerinas da árvore, tanques de pedra, manhãs de nevoeiro e cheiro a maresia.

Be the first to comment on "Como de uma iogurteira saltei para a caixa de madeira e daí para mim"

Leave a comment

Your email address will not be published.


*