Por Raquel Azevedo *
Quando se fala em obras que mudaram a forma como o mundo olha para o Irão, poucos títulos têm o impacto de Persepolis. Publicado originalmente como romance gráfico e posteriormente adaptado para cinema de animação, o filme tornou-se uma referência mundial pela forma íntima, sensível e profundamente humana com que retrata a Revolução Islâmica Iraniana e as suas consequências.

A mente por trás desta obra foi a artista, escritora e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi, que faleceu em 2026 aos 56 anos. Segundo familiares e amigos próximos, Satrapi morreu “de tristeza”, pouco mais de um ano após a morte do marido, Mattias Ripa, descrito como “o amor da sua vida”.
Persepolis é uma autobiografia ilustrada. A história acompanha a infância de Marjane em Teerão durante os anos que antecederam e sucederam à Revolução de 1979. Com um traço simples, a preto e branco, a autora narra acontecimentos políticos complexos através dos olhos de uma criança curiosa, irreverente e determinada.
No filme, lançado em 2007, acompanhamos a jovem Marjane enquanto tenta compreender um mundo marcado pela repressão, pela guerra e pela perda de liberdades. A imposição do véu, a censura, a perseguição política e a guerra entre o Irão e o Iraque são retratadas não apenas como eventos históricos, mas como experiências humanas que moldam vidas e identidades.

Mas Persepolis é mais do que um relato político. É uma história sobre memória, exílio e pertença. Satrapi mostra as dificuldades de crescer entre culturas diferentes, dividida entre as raízes iranianas e a vida na Europa. Através da sua narrativa, desmonta estereótipos e apresenta um Irão distante das simplificações frequentemente reproduzidas pelos meios de comunicação ocidentais.
Ao longo da sua carreira, Marjane Satrapi tornou-se uma voz fundamental na defesa da liberdade de expressão, dos direitos das mulheres e da dignidade humana. Os seus livros e filmes revelam uma autora que acreditava no poder das histórias para aproximar povos e combater preconceitos. A sua arte foi sempre um ato de resistência.
A notícia da sua morte trouxe uma dimensão quase literária à sua própria biografia. Amigos e familiares afirmaram que nunca recuperou verdadeiramente da perda do marido. A expressão “morreu de tristeza” tornou-se símbolo da profunda ligação afetiva que marcou os seus últimos anos.
Hoje, ao revisitar Persepolis, não encontramos apenas a história de uma menina iraniana. Encontramos uma reflexão universal sobre identidade, coragem, amor e sobrevivência. E descobrimos que algumas histórias permanecem connosco muito depois de a última página ser virada.

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