O dia
(Parte 1 de 2)
Por Vanda Azuaga *
Está muito frio. Nem o cão quer ir à rua! Peguei na trela e vesti o casaco. Já ia a fechar a porta de casa e voltei atrás para enfiar um gorro na cabeça.
— Assim estou mais protegida, pensei. Por acaso não chovia, mas o ar frio entrava pelas narinas e fazia-me estar atenta à respiração, como quando se quer iniciar uma meditação. Inspira, expira, inspira e sente o frio; expira e deixa sair o que não faz falta.

Olhei o céu. Tinha algumas nuvens escuras e outras partes mais claras, apesar de ser quase noite. A lua ténue crescia no seu ritmo lento e um avião cruzou o céu, as luzes a piscar. Senhores passageiros, iniciamos a descida para o Porto. Por favor mantenham os cintos apertados. A temperatura local é de 6 graus celsius e aterraremos às 19.50, hora local.
Respiro fundo e sinto que o ar está sujo. Depois de quatro horas e meia sentada, já me dói o rabo, as costas e a cabeça. Lá em baixo distinguem-se as luzes das ruas e das casas, os faróis dos carros nas ruas e avenidas. Algumas rotundas. Uma mancha escura, o rio. Distingo as pontes, o porto de Leixões. Algures por ali, não muito longe, fica a minha rua, o meu prédio, a minha casa. Na realidade, só a casa é minha, mas daqui de cima é tudo meu. A cidade inteira!
O cão anda de focinho baixo e começou a rodopiar. Bate com a patita no chão e já sei que vai cagar. Li uma vez que os cães cagam sempre virados para o mesmo lado, mas posso afiançar que é mais uma das mentiras que circula nas internetes dos reels e dos posts: o meu cão não escolhe ponto cardeal ou tem a bússola desnorteada! Umas vezes é de frente, outras de lado, como lhe dá vontade. Mas o que me intriga mais é o que o faz cheirar e cheirar e finalmente decidir o lugar onde, fumegante, vai depositar o seu cocó. O terreno é de ninguém, bravio, e não preciso de apanhar o cocó com o saco plástico. Polui mais o saquinho do que a merda do cão, que sempre aduba as plantas selvagens que crescem no terreno que não sendo de ninguém também é meu quando visto de lá de cima. Dentes de leão, trevos, um pinheiro, ervas, uma planta cujas folhas esmagadas cheiram a betadine e libertam um suco amarelado. Lamento, mas os meus conhecimentos de botânica são fracos. O que sei é quase sempre aprendido em vídeos do Instagram, páginas que sigo sobre natureza.
Com a fauna acontece o mesmo. Chamo passarada a quase todas as aves. Conheço as pegas rabudas, os pardais (embora não os distinga de outros pássaros pequenos e saltitões), as perdizes e, com segurança, mais nenhuma. Sei as características das aves de rapina, mas não distingo a águia do falcão, ou do milhafre, o mocho da coruja, e por aí fora. Mesmo pombas e rolas são parecidas.
Enquanto que relativamente à flora lamento mesmo a minha ignorância, no caso das aves, o desconhecimento vem porque não gosto particularmente delas. Mas não será só por isso, gosto de mamíferos, mas também sou incapaz de identificar a raça de um cão; o mesmo para os gatos, só sei que os persas são mais peludos e que os da noruega são enormes! E confundo dromedários com camelos. Enfim, sou ignorante mesmo.
No entanto, há um pássaro que conheço bem e que admiro: a passarinha! Não, não estou a brincar! A passarinha existe mesmo! Empoleirada nos fios da eletricidade ou na copa das árvores, lá está ela, linda e colorida, com as penas azuis brilhantes e o bico vermelho. Encantou-me desde o primeiro avistamento, algures, lá nas terras montanhosas do Cabo Verde.
Quando eu andava no liceu, as aulas de ciências da natureza dividiam-se entre botânica e zoologia. Uma vez, a professora pediu para fazermos um herbário. Tínhamos de recolher amostras de plantas e analisar as folhas: cordiformes, em forma de coração, são as únicas em que podia acertar na pergunta dos 50.000 de qualquer concurso da treta da TV. Depois havia as raízes e os caules, os rizomas como o gengibre, os tubérculos como a batata. E pronto, com a minha falta de jeito habitual, pespeguei no meu caderninho herbário — onde outras colavam com pinça e cuidado extremo os espécimes recolhidos e escreviam numa caligrafia desenhada o nome comum da planta e o nome científico — metade de uma batata que por ser tão barriguda nem dava para fechar o dito cujo. Risota na turma, raspanete da prof. Humilhação, ao reconhecer a minha falta de jeito para certas coisas. Ou será falta de sensibilidade? De tacto? De um não saber estar, que me acompanha toda a vida, como uma sombra?
Lembro-me deste episódio enquanto regresso a casa com o cão pela trela. Naquele tempo estudavam-se os quatro estômagos das vacas, as características das patas dos cavalos e de outros bichos, havia uns que eram perissodáctilos — Meu deus, como fui capaz de me lembrar desta palavra tão complicada e da qual já nem sei o significado, agora que já me custa a recordar o nome de pessoas com que convivo? Com a idade a memória recente esvai-se e cria situações embaraçosas, como quando se quer gravar o número de alguém, cujo nome sabemos que sabemos, mas não vem.
Que raio de patas tens tu, cão? Que nome têm? Uma vez disseram-me que alguns rafeiros têm um dedinho mais acima, na canela dos cães. Também deve ter nome esse apêndice. Como o da agente do serviço de estrangeiros e fronteiras de Cabo Verde, uma mulher que embirrava com muitos dos que procurávamos ficar legais no país e nos atendia com distância, embirrando com a papelada que estava sempre (ainda!) em falta. Também ela tinha seis dedos numa mão.

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