Por Vanda Azuaga *
Eu sabia desde o início que contigo iria ser diferente. Mas o meu amor por ti, acreditava eu, ia fazer vencer todas as barreiras. Nem quando somos menos jovens ganhamos juízo, dir-me-ia a minha amiga Té! E com razão. A paixão não se explica, não se detém; tem a fúria das águas e o calor das fogueiras, sopra-nos na cara e obriga-nos a cerrar os olhos, numa ventania desgovernada. E não escolhe a idade – e ainda bem! Se não, quem não se apaixonou em novo, nunca teria a possibilidade de vir a sentir o coração a expandir-se. Não foi o meu caso, sempre amei muito e a vários homens. Alguns ao mesmo tempo, até, por muito que isso te possa fazer impressão. Quando me apaixonei por ti, pelo teu olhar meigo de cão, ainda vivia numa certa harmonia com o Raúl. Se ele tivesse tentado reconquistar-me, talvez eu tivesse esquecido os teus beijos e voltasse a ser a esposa dedicada que ele teve ao longo destes anos. Mas não, o Raúl tinha outros planos que não me incluíam: a carreira profissional, a viagem ao Sri Lanka e claro, tinha uma filha adolescente que o consumia e não deixava espaço para mais nada. E apareceste tu, na altura em que eu precisava de um amigo… e me estava a desligar do marido. Naquela noite, enquanto o empregado do restaurante servia a entrada de queijo de cabra frito com gelado de beterraba, ele olhou para mim, elevou o copo de vinho e disse: um brinde ao futuro! E a seguir disse que precisávamos de falar e pôs-me ao corrente dos seus planos para sair de casa. Levei um murro no estômago! Nunca pensei que te sentisses assim tão mal na nossa relação, Raúl! Chorei, confesso que chorei, por isso digo que no fundo ainda te amava, apesar do desconforto que vínhamos sentindo. E senti-me assustada, não sou uma mulher destemida e que assuma riscos. A vida, nos últimos anos, tinha sido partilhada contigo e assustavam-me as despesas, a gestão de tudo, a… a solidão, se calhar. E tive ciúmes da tua filha, também. Daquela adolescente malcriada e exigente que sempre me detestou e que faz tudo para desviar as atenções para ela, ”pobre filha de pais separados”!

E aproximei-me de ti, David. Já nos havíamos encontrado algumas vezes, tínhamos em comum amigos e o interesse pela arte. E tu tinhas o olhar meigo dos cães e o sorriso inocente dos bichos. Um dia aconteceu e a tua boca sabia a feno e a ar puro, davas-me a luz das montanhas e a esperança dos campos cultivados! E apaixonei-me por ti, pela segurança que me dava o teu olhar, pela fresca liberdade das tuas gargalhadas. Depois… foi o que foi. Podia ser só um equívoco, uma questão temporária e tudo se resolveria. Uma cabala, como dizias. E aceitei que não poderíamos andar de mãos dadas pelas ruas, que havia tanta coisa que não podíamos fazer juntos! Às vezes, quando na hora de almoço ia comer qualquer coisa ao shopping, pensava em como era bom se pudéssemos estar ali a almoçar juntos. Outras vezes, quando ia ao ginásio e via os outros homens a treinar, imaginava-te ali, transpirando e exercitando o corpo. Talvez um dia, talvez. E eu tinha esperança! E aguardava uma chamada tua com a ansiedade de uma criança que espera uma prenda no natal. E todos os dias eram natais para mim, mesmo que a prenda não viesse. E eu ficava triste, e chorava por ti, pela tua distância e ausência. Vivia nessa altura junto a um parque, num bloco de apartamentos onde arrendei um T0 barato e via casais de namorados a beijarem-se na relva, no verão ou dentro dos carros de vidros embaciados, quando o outono chegou. E pensava que não o podíamos fazer, pelo menos enquanto a tua vida não estivesse decidida. E esperei. Pacientemente esperei por ti. Por uma decisão que não era minha e que iria mudar a tua vida e a minha. E passaram-se meses e eu aguardava. Comprei um saco grande, daqueles aos quadradinhos cinzentos e juntei-me a tantas outras mulheres que visitavam os filhos, os pais, os irmãos, os companheiros. Esperei horas na fila da visita, à chuva e ao frio. Ouvi desabafos e palavrões, ouvi choros e consolei gente, ouvi insultos e histórias de vida. E sofri apalpões e assédio. Tudo para poder ter a tua boca de feno! Ah, foda-se! Fartei-me de esperar, David! Mas hoje soube que talvez, quando o novo Papa vier a Portugal, haja um perdão, uma amnistia. E as montanhas iluminaram-se outra vez! Mas a tua boca já não sabe a feno, tens o amargo dos cigarros fumados na cadeia.

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