Por Vanda Azuaga *
Quando eu era criança das melhores prendas que me podiam dar eram cadernos em branco e aguarelas ou lápis de cor. Na altura, já lá vão muitos anos, não havia muitas coisas para oferecer às meninas além de bonecas ou caixas de chocolates. Mas, quando os meus pais iam a Espanha, costumavam dar-me livros para colorir que me entretinham pelas tardes fora.
Já adolescente, quando descobri que havia livros que ensinavam manualidades, passava tempos a aprender a fazer bonecos de pompons, a recortar moldes para bonecos de trapos, a fazer uma mistura de miolo de pão, glicerina e sumo de limão para fazer uma pasta de modelar caseira. Fui aperfeiçoando a receita, percebi que ficava mais macia com miolo de pão de forma (mas era raro haver disso lá por casa) e tinha de moer na velha 123 miolo de pão de trigo. Com cuidado, só se pode fazer 1,2,3 segundos, advertia a minha mãe. Se não, ainda queimas o motor — mas a velha Moulinex ainda hoje pica o que se lhe lá meter dentro!

A glicerina era “desviada” da mesinha de cabeceira da minha avó, que a comprava em frascos na farmácia e a usava para amaciar as mãos, quando se ia deitar. Essa mesma mesinha, que no ano passado limpei, pintei e forrei e que agora está no hall da minha casa, recordando a minha querida avó Lilá e os segredos que ela guardava em caixinhas que cheiravam a pó de arroz e água de rosas.
Depois de tudo bem amassado, lá conseguia dar forma a casinhas, bonecos de cabelo feito de corda desfiada e outros seres, como uns bichanos com bigodes e caudas de ráfia. Deixava secar e pintava com aguarelas ou guaches, consoante o que houvesse lá por casa — e nunca havia muita coisa! Tubos espremidos ou já secos, rodelinhas de cores que só se descobriam depois de limpar a superfície, que invariavelmente tinha tinta de outra aguarela misturada, e uns tocos de lápis de cera que não me serviam para nada. Mais tarde aprendi a usá-los para decorar velas, mas aí já era mais crescida e podia ir para o fogão e derreter estearina e mais não sei o quê, numa panelinha de alumínio.
Depois das pinturas, seguia-se o envernizamento. À falta de compreensão dos meus pais, que não me compravam uma lata de verniz, eu reagia com um ataque ao verniz das unhas da minha mãe — havia sempre transparente (o melhor), mas se fosse rosa também dava! Na altura usava-se um verniz transparente com pedacinhos brilhantes dourados ou prateados, e até esse era usado. Um dia, descobri uns bocados de azulejo branco que tinham sobrado de uma obra qualquer e comecei a tentar pintar em cima do azulejo. Não era fácil, a aguarela borratava muito, mas fui aperfeiçoando a técnica e pintei uma pantera cor-de-rosa que copiava dos livros de banda desenhada. Inseria balões de fala e também assim me entretive muitas vezes.
E toda esta conversa vem a propósito de quê, perguntarão os que conseguiram chegar até aqui. É que hoje andei a arrumar uma série de coisas cá por casa e desfiz-me de uma data de “tralha”. E pensei que na minha infância tudo era valioso e difícil de arranjar. Se calhar, não da mesma forma para todos, mas eu vivia numa quinta, ainda afastada da aldeia, em Trás-os-Montes! Era preciso guardar para se ter, seguindo a velha máxima do “guarda o que não queres e encontrarás o que precisas”. Hoje tenho tudo à mão: a drogaria, a papelaria, o super à beira de casa e se estiverem fechados há sempre os chineses, o hipermercado, as bombas de gasolina ou o Leroy.
Mas a minha geração foi habituada a guardar e agora, ainda por cima com as tardes a encurtarem à medida que a idade avança, chega-se à conclusão que só juntamos tralha! E não vai haver lugar a mais tardes intermináveis de manualidades, só sonhadas. Já não há tempo para nada… obsolescência programada, consumismo, revolução tecnológica e assim se passaram cinquenta anos.

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