Economia de plataformas e crise da representação coletiva

A economia de plataformas tem sido frequentemente apresentada como símbolo de inovação, flexibilidade e empreendedorismo individual. No entanto, uma análise mais atenta revela que esse modelo intensifica tendências históricas de precarização do trabalho, ao mesmo tempo em que impõe novos obstáculos à ação coletiva. Conforme argumenta Kurt Vandaele (2018), a questão central não é apenas se os sindicatos sobreviverão à economia de plataformas, mas em que condições e com quais transformações.

Embora sustentadas por tecnologias digitais avançadas e gestão algorítmica, as plataformas de trabalho reproduzem práticas organizacionais antigas, como o pagamento por tarefa, o trabalho sob demanda e a transferência sistemática de riscos para os trabalhadores. A suposta autonomia dos trabalhadores de plataformas frequentemente encobre relações de subordinação económica e controle intensivo, exercido por meio de algoritmos opacos, sistemas de avaliação e monitoramento contínuo. Nesse sentido, a economia de plataformas contribui para a recomodificação do trabalho, enfraquecendo direitos sociais historicamente conquistados.

Do ponto de vista da ação coletiva, os trabalhadores de plataformas enfrentam sérias limitações estruturais. A maioria possui baixo poder de barganha no mercado de trabalho, dada a ampla oferta de mão de obra, a fragmentação das tarefas e a competição global viabilizada pelas tecnologias digitais. No caso do trabalho online, como o crowdwork, a dispersão geográfica e a ausência de um local físico de trabalho reduzem drasticamente a capacidade de organização e de interrupção da produção. A própria classificação jurídica desses trabalhadores como autónomos limita o acesso a direitos fundamentais, como a sindicalização e a negociação coletiva.

As mobilizações dos estafetas em várias cidades europeias evidenciam que, mesmo em contextos de extrema precariedade, é possível construir formas embrionárias de poder coletivo.

Ainda assim, Vandaele identifica diferenças importantes entre os diversos tipos de trabalho em plataformas. Trabalhadores de entrega e transporte, por exemplo, ocupam uma posição estratégica na cadeia de serviços urbanos e possuem maior potencial de disrupção. As mobilizações dos estafetas em várias cidades europeias evidenciam que, mesmo em contextos de extrema precariedade, é possível construir formas embrionárias de poder coletivo. Contudo, essas ações permanecem frágeis, sujeitas à repressão das plataformas e à substituição rápida da força de trabalho.

Nesse contexto, emergem novas formas de representação coletiva, como guildas, cooperativas de plataforma e associações de freelancers, que coexistem com sindicatos tradicionais. Vandaele destaca uma tensão entre duas lógicas: a lógica da filiação, mais próxima das demandas imediatas dos trabalhadores, e a lógica da influência, baseada na atuação institucional e na negociação com o Estado e os empregadores. Embora os sindicatos tradicionais tendam a operar predominantemente segundo a segunda lógica, sua eficácia na economia de plataformas é limitada pela resistência das empresas e pelas lacunas regulatórias.

Dessa forma, a economia de plataformas não representa apenas um desafio conjuntural ao sindicalismo, mas expõe uma crise mais profunda da representação coletiva em mercados de trabalho fragmentados e desregulados. A sobrevivência dos sindicatos dependerá de sua capacidade de reconhecer essas limitações, dialogar com novas formas organizativas e enfrentar criticamente o discurso da inovação que legitima a precarização. Sem mudanças estruturais e regulatórias, a adaptação sindical corre o risco de ser apenas marginal frente ao poder crescente das plataformas.

[Imagem: Marília Casteli/Coonecta]

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Raquel Azevedo
* Raquel Azevedo é técnica multimédia, produtora, activista sindical e cinéfila.

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