Beauty in Black, série TV S3, drama, UK, 2024. Criador Tyler Perry; com Taylor Polidore Williams, Crystle Stewart, Amber Reign Smith. Disponível em Netflix.
Por Raquel Azevedo *,
Criada, escrita e realizada por Tyler Perry, Beauty in Black é uma série dramática da Netflix que mergulha num universo onde beleza, dinheiro, poder e violência caminham lado a lado. A narrativa cruza duas realidades aparentemente distantes, mas profundamente ligadas por interesses económicos e relações de domínio. No centro da história encontramos mulheres que tentam sobreviver num sistema em que o corpo feminino pode ser simultaneamente instrumento de poder e território de exploração.

A série acompanha sobretudo Kimmie, uma jovem que trabalha num clube de striptease e vive numa situação marcada pela precariedade e pela violência. A sua vida cruza-se com a poderosa família Bellarie, proprietária de um império construído em torno da indústria da beleza. Este encontro permite a Tyler Perry estabelecer um contraste evidente: de um lado, quem luta diariamente pela sobrevivência; do outro, uma família cercada de luxo e privilégios. No entanto, à medida que a história avança, percebemos que o dinheiro não elimina a violência, a manipulação ou a dependência. Apenas lhes oferece outros cenários.
Um dos aspetos mais interessantes de Beauty in Black é precisamente a utilização da indústria da beleza como metáfora. Cremes, cabelos, maquilhagem, roupas e uma imagem cuidadosamente construída escondem relações familiares profundamente deterioradas. A beleza deixa de ser apenas uma questão estética para representar estatuto social, controlo e capacidade de influência. Por detrás da aparência perfeita existe um mundo de ambição, segredos e disputas pelo poder.
Kimmie representa o outro lado desta realidade. A personagem é apresentada inicialmente numa posição extremamente vulnerável, mas a sua trajetória revela progressivamente inteligência, capacidade de adaptação e uma enorme vontade de sobreviver. A série coloca assim uma questão importante: até onde pode alguém ir quando todas as estruturas à sua volta parecem construídas para limitar as suas escolhas?

Tyler Perry aposta numa narrativa assumidamente melodramática. Existem confrontos intensos, traições, relações familiares tóxicas, sexo, violência e sucessivas revelações. Em determinados momentos, a série aproxima-se deliberadamente da novela televisiva, privilegiando o choque e a emoção em vez da subtileza. Esse excesso pode dividir o público: para alguns espectadores será precisamente o elemento viciante da produção; para outros poderá tornar algumas situações demasiado previsíveis ou exageradas.
Mas é também nesse exagero que Beauty in Black encontra parte da sua identidade. A série não pretende retratar um mundo tranquilo. Mostra personagens constantemente pressionadas por desigualdades económicas, raciais e de género, num ambiente onde quase todas as relações possuem uma dimensão de negociação e poder.
Outro elemento relevante é a presença central de mulheres negras. Elas não surgem apenas como figuras secundárias: ocupam o centro dos conflitos, tomam decisões, cometem erros, manipulam, resistem e procuram autonomia. Não são apresentadas como personagens perfeitas, mas como figuras contraditórias, capazes de vulnerabilidade e crueldade.
Visualmente, a produção explora o contraste entre o luxo associado à família Bellarie e os espaços mais duros frequentados por Kimmie. Essa oposição reforça uma das ideias fundamentais da narrativa: dois mundos sociais podem parecer completamente diferentes e, ainda assim, estar ligados pelo mesmo sistema de dinheiro, desejo e exploração.
Beauty in Black funciona, portanto, como um drama sobre sobrevivência e transformação. Por baixo da superfície de luxo, sensualidade e escândalo existe uma história sobre pessoas que procuram controlar o próprio destino. Tyler Perry utiliza os códigos do melodrama para falar de desigualdade, ambição e poder, mostrando que a beleza pode abrir portas, mas também esconder algumas das formas mais profundas de violência.
No final, talvez seja essa a provocação mais interessante da série: perguntar o que existe por detrás da imagem perfeita. Porque em Beauty in Black, quanto mais brilhante é a superfície, mais escura pode ser a realidade que ela procura esconder.

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