Albânia: a Revolução Gentil

Durante o dia, em Tirana, a vida segue normalmente: as pessoas vão trabalhar, os estudantes universitários se preparam para os exames, as crianças brincam nos parques públicos, os aposentados tomam um café em um dos muitos bares e conversam por horas… Os primeiros turistas, entre os quais um bom número de italianos, visitam a mesquita e a Praça Scanderbeg. Não há cartazes, pichações nas paredes ou panfletos… Tudo tranquilo, enfim, na mais completa normalidade.

O único sinal visível do que está a decorrer são as mesas onde se colectam assinaturas para os dois referendos revogatórios das leis que permitem contornar as restrições ambientais e, assim, favorecer a especulação imobiliária mesmo nas áreas protegidas mais belas da Albânia.

Isso tudo em benefício dos oligarcas locais, que lavam o dinheiro sujo das máfias de meio mundo e, sobretudo, abrem as portas para o genro sionista de Trump que, segundo se diz — mas não posso verificar —, investe dinheiro israelita… Em suma, a velha, corrupta e desacreditada classe política do autodenominado partido “socialista” de Edi Rama e da autodenominada “oposição do partido ‘democrático’” de Sali Berisha está vendendo o país ao capitalismo mais voraz.

Às 18h [do passado domingo 14 de Junho] tudo muda: o povo de Tirana chega cada vez mais numeroso à Praça Scanderbeg e, quando a maior praça de Tirana fica lotada, começa a marchar até a não muito distante sede do primeiro-ministro Rama.

Homens e mulheres, idosos e crianças. Muitas crianças, desde os recém-nascidos que, apesar do barulho, conseguem dormir nos carrinhos e nos slings das mães, até as mais velhas nos ombros ou nos braços dos pais, que agitam alegremente suas bandeirinhas ou cartazes escritos e desenhados em casa e entoam os slogans mais populares: “Rama e Berisha, para vocês acabou!”, “Revolução! Revolução!”

Ontem foi um dia especial: o encontro não era apenas nacional, pois reunia em Tirana todos os albaneses, incluindo aqueles que vivem no Kosovo, na Macedônia do Norte, no sul de Montenegro e no norte da Grécia: em suma, todo o território da chamada “Grande Albânia” e os da diáspora de todas as partes do mundo, que aproveitaram os dias de férias para voltar à pátria e dar uma contribuição para a redenção de sua terra.

Uma maré, um oceano de pessoas que, aos poucos, foi crescendo até perder-se de vista. Predominava o vermelho, cor da bandeira, com a águia negra de duas cabeças. Eram visíveis as silhuetas dos flamingos rosa que se moviam em fila entre a multidão, guiados por uma cegonha branca.

Drones dos manifestantes documentavam o evento; um deles, muito aplaudido, sobrevoou a multidão agitando a bandeira albanesa.

No palco, os oradores se alternavam — intelectuais, artistas e representantes da sociedade civil. Obviamente, não compreendi nada, mas as pessoas aplaudiam com convicção.

Nenhuma bandeira dos três partidos, por enquanto pequenos, presentes no Parlamento, nem mesmo dos grupos ambientalistas.

Os socialistas democratas da Nova Albânia carregavam uma faixa, sem símbolo nem assinatura, mas com o lema: “A Albânia não está à venda”.

O patriotismo albanês não tem sentimentos supremacistas e está isento de impulsos xenófobos: baseia-se no vínculo com a própria terra (como o patriotismo dos palestinos e dos curdos, para que se entenda) e com a sua cultura, que acredita e pratica o acolhimento.

A escadaria do palácio do primeiro-ministro Rama era vigiada por cerca de vinte policiais sem capacete, escudo e cassetete e sem arma no coldre. De forma bem-humorada, eles pediam para que ninguém se sentasse nos degraus nem subisse as escadas. No entanto, algumas crianças “desobedientes” brincavam de apanhadinha em frente ao portão do ministério, sem que os policiais tivessem nada a dizer.

Hoje e nos próximos dias, a luta continuará até ao fim, até a vitória do povo, dizem-me com determinação pacífica.

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Pressenza Agência
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