A Dupla Face — Um Dilema Crucial

Um grande dilema e desafio do cooperativismo no Brasil (mas não apenas) é a desarmonia entre as duas faces que o compõem. Essa deformação é genética, pois vem desde sua geração, com a formação de uma face interna e uma externa. A primeira, voltada para dentro, caracterizada por ser a cooperativa uma sociedade de pessoas (em contraposição às sociedades de capital), baseada em relações coletivas de produção e administração, fontes dos princípios históricos, a exemplo da gestão democrática, da inexistência de superiores e subordinados, da intercooperação, entre outros. A segunda face, voltada para fora é caracterizada pela competição em um mercado agressivo, cuja finalidade primordial é o lucro, motor do capitalismo.

Manter o equilíbrio, competir nesse mercado sem colidir com os princípios essenciais do cooperativismo, é o dilema não resolvido e que produz tantos questionamentos, descréditos, desvios de finalidade. É comum se ouvir: no mundo dos negócios, agilidade é fundamental. Como conciliar decisões ágeis com democracia participativa, poder de decisão do conjunto dos cooperados, educação cooperativista? E assim, cada vez mais a sociedade cooperativa se confunde com a sociedade empresária.

O êxito econômico do setor cooperativo no Brasil é inegável. No ramo do agronegócio, entre as quatrocentas maiores empresas, mais de sessenta são cooperativas. A Central Unimed está entre as cinquenta maiores empresas de saúde do país. Elas não fazem, entretanto, o balanço do cumprimento dos princípios do cooperativismo e, não raro, aparecem na imprensa nomes de cooperativas autuadas igualmente às empresas capitalistas por descumprimento da legislação trabalhista em relação aos seus empregados ou por concorrência desleal e até crimes contra o consumidor, como colocar água no leite para lhe aumentar o volume ou soda cáustica para lhe mascarar a condição de impróprio para alimentação.

No ano de 2022, o Sistema da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) lançou um desafio às cooperativas para alcançarem até 2027, ou seja, em cinco anos, 1 trilhão de reais [cerca de 170,8 mil milhões de euros] de faturamento (um tri de prosperidade) e 30 milhões de cooperados. Felizmente, num sinal de que ainda há luz no túnel, parte dos delegados presentes ao 15º Congresso Brasileiro do Cooperativismo (CBC), realizado em maio de 2024, lançou a preocupação com o risco de desaparecimento da cultura cooperativista, cada vez mais esquecida na prática.

O Congresso aprovou a tese, que entrou no plano estratégico da entidade, que proclamou 2026 como Ano da Cultura Cooperativista. Foi realizada pesquisa entre as cooperativas para verificar como estão praticando essa cultura, mas, até agora não se desencadearam ações de resgate ou reforço dessa cultura, e já estamos no final do primeiro quadrimestre do ano.

É preciso que essa campanha seja permanente e que, enfrentando o vento e a maré, as duas faces busquem harmonia e coerência. Somente assim, os pinheirinhos se manterão firmes. Caso contrário, sobreviverão apenas nos museus da História.

E pra não dizer que não falei de flores, 25 de abril e cooperativismo têm tudo a ver. “Foi bonita a festa, pá! Fiquei contente e ainda guardo renitente um velho cravo para mim. Já murcharam tua festa, pá, mas, certamente, esqueceram uma semente nalgum canto de jardim…” (Chico Buarque, Tanto Mar)

About the Author

Luís Alves
É paraibano, advogado especializado em Direito Cooperativo e Assessor Jurídico do Sistema OCB/PE (Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Pernambuco).

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