Trump, o dono da bola

Se há algo a que Donald Trump nos habituou foi à sua capacidade singular de, mesmo quando a situação parece já não poder tornar-se mais ridícula, conseguir sempre surpreender e ir um pouco mais longe. Pela negativa. Foi o que voltou a acontecer na passada quinta-feira, ao decidir retirar o convite a Mark Carney para integrar o seu proclamado “Conselho de Paz”.

Se a decisão, por si só, já levantava algumas questões. A forma como foi comunicada eleva o episódio a um plano quase surreal. Na carta enviada a Carney (publicada na rede social de Trump) o Presidente escreve: “Considere esta carta como uma notificação da retirada, por parte do Conselho de Paz, do convite para participar no que será o Conselho de Líderes mais prestigiado jamais reunido.” Uma frase que diz muito sobre a grandiloquência, o personalismo e a lógica auto-referencial com que o actual Presidente dos Estados Unidos encara a diplomacia internacional, tratando países aliados como simples peças de xadrez descartáveis sempre que deixam de alinhar com a sua narrativa dominante.

Para compreender melhor este gesto, importa atender ao contexto em que ocorre. A retirada do convite aconteceu poucas horas depois de Mark Carney ter proferido um discurso particularmente marcante no Fórum Económico Mundial, onde apelou aos países de média dimensão para que não se resignem à lógica da força nem à intimidação dos “bullies” da geopolítica. Carney alertou para o esgotamento da chamada “ordem baseada em regras”, sublinhando que esta está a ser progressivamente substituída por um ambiente em que “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”. Nesse sentido, lembrou que os Estados de média dimensão não podem limitar-se a acomodar-se aos humores dos mais poderosos, devendo antes cooperar entre si para preservar valores essenciais como a soberania, os direitos humanos e a integridade territorial.

Donald Trump é aquele amigo que todos tivemos na infância. Não sabia jogar à bola, não dominava as regras e raramente contribuía para que o jogo fluísse.

É precisamente essa mensagem (clara, incómoda e politicamente assumida) que parece ter precipitado a reacção de retirada do convite. Trata-se de uma expressão evidente de retaliação política e de hierarquização das visões sobre a ordem global, reveladora do desconforto perante quem ousa questionar a lógica do poder imposto.

No fundo, Donald Trump é aquele amigo que todos tivemos na infância. Não sabia jogar à bola, não dominava as regras e raramente contribuía para que o jogo fluísse. Mas havia um detalhe decisivo: a bola era dele. E, por isso, sentia-se no direito de mandar no jogo, de mudar as regras a meio da partida e de decidir, consoante o humor do momento, quem podia jogar e quem ficava de fora. Durante anos, aceitámos esta figura como uma inevitabilidade dos recreios. O problema é que esta lógica infantil não ficou confinada à infância e hoje reaparece, com consequências muito mais sérias, no palco da política internacional.

Com efeito, essa lógica do “dono da bola” ajuda a explicar muito do que hoje se passa nas relações internacionais. Quando o poder se exerce sem limites claros, quando as regras passam a ser vistas como obstáculos e não como garantias, e quando a diplomacia é reduzida a um jogo de vontades pessoais, o resultado é previsível: imprevisibilidade, instabilidade e erosão da confiança entre Estados. Não é por acaso que Carney insistiu, em Davos, na necessidade de recuperar uma ordem internacional assente em regras, limites e responsabilidade — não por ingenuidade, mas por realismo político.

É certo que Trump não inventou este fenómeno. Ainda assim, personificou-o de forma exemplar. Confunde força com intimidação, liderança com imposição e interesse nacional com capricho pessoal. Como o dono da bola, usa a posse (económica, militar e simbólica) como instrumento de pressão política, tratando aliados como figurantes e adversários como inimigos a humilhar, nunca como interlocutores a respeitar. Ao aceitarmos que a política global funcione como um recreio, abrimos espaço à infantilização do poder e à desresponsabilização dos líderes. Passa a valer tudo: a ameaça, o insulto, a retirada unilateral, a chantagem económica.

Não temos o peso dos grandes, mas temos voz, história diplomática e um interesse directo numa ordem internacional previsível e justa.

Perante este cenário, importa regressar à advertência de Carney. “A velha ordem não vai voltar, e não devemos lamentá-la”. A nostalgia pode confortar, mas não é uma estratégia política. O mundo mudou, as fracturas são reais e insistir num passado idealizado apenas adia decisões inevitáveis. O desafio não está em reconstruir o que ruiu, mas em perceber o que pode — e deve — ser construído a partir dessa ruptura.

É aqui que o papel dos Estados de média dimensão se torna decisivo. São estes países que mais têm a perder num mundo fechado em fortalezas, governado pela lei do mais forte e pela diplomacia da intimidação. Mas são também estes que mais têm a ganhar num sistema internacional baseado em cooperação genuína, regras partilhadas e responsabilidade mútua. Não por ingenuidade, mas porque a alternativa é a irrelevância ou a submissão silenciosa.

Para Portugal, esta não é uma discussão teórica. É uma escolha estratégica. Não temos o peso dos grandes, mas temos voz, história diplomática e um interesse directo numa ordem internacional previsível e justa. Num mundo governado por impulsos, chantagens e jogos de força, são sempre países como o nosso que ficam mais expostos. Por isso mesmo, está na hora de “retirar os cartazes das janelas”: deixar para trás proclamações vazias e a política feita de soundbites. O tempo exige menos encenação e mais substância; menos líderes a jogar para as câmaras e mais responsáveis políticos dispostos a assumir compromissos duradouros, mesmo quando estes não rendem aplausos imediatos.

Num mundo cada vez mais governado como um recreio, onde alguns continuam a agir como donos da bola, são sempre os mais pequenos que acabam empurrados para fora do jogo. Portugal sabe-o bem. E sabe também que a única forma de continuar a jogar é garantir que as regras contam — e que contam por igual para todos.

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Alvaro Costa
Ex-Deputado Municipal por Matosinhos e Conselheiro Local da EU.

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