Por Raquel Azevedo *
Nesta manhã que se tornou ainda mais escura que o previsto pelas condições climatéricas, o cinema português parece pedir silêncio. Não por perda física, mas por confronto. Confronto com aquilo que João Canijo sempre nos obrigou a fazer: olhar de frente para o que somos, para o que escondemos, para o que preferimos não nomear.

Canijo nunca filmou para confortar. Filmou para expor. A sua câmara é um lugar de tensão permanente, onde o afeto e a violência convivem na mesma frase, no mesmo gesto, no mesmo plano. Nos seus filmes, a família não é refúgio — é campo de batalha. As mulheres não são símbolos — são corpos cansados, vozes duras, presenças que resistem. E o real não é estilizado: é cru, às vezes quase insuportável, como a vida quando deixa de fingir.
Desde Sangue do Meu Sangue até Mal Viver e Viver Mal, Canijo construiu um cinema onde não há redenção fácil. Há repetição, herança emocional, ciclos que se fecham apenas para voltar a abrir. O que se transmite de mãe para filha não é apenas amor, é medo, frustração, sobrevivência. E isso incomoda porque reconhecemos. Porque sabemos. Porque é nosso.
A sua forma de filmar aproxima-se mais de um confronto ético do que de uma narrativa clássica. Longos diálogos, atores levados ao limite, uma encenação que parece sempre à beira do colapso. Nada é gratuito. Tudo pesa. Tudo conta. Canijo confia no espectador — não o guia pela mão, não explica, não suaviza. Obriga-nos a ficar. A ouvir. A suportar.

Num tempo em que tanto cinema procura ser exportável, neutro, universal no pior sentido da palavra, João Canijo escolhe o oposto: o específico, o incómodo, o local. Portugal não como postal, mas como casa onde se discute à mesa, onde se ama mal, onde se sobrevive como se pode. É um cinema profundamente político sem slogans, profundamente social sem paternalismo.
Este é um artigo de opinião, e a minha opinião é simples: o cinema português seria muito mais pobre sem João Canijo. Não apenas pela sua filmografia, mas pela coragem de insistir num olhar que não pede desculpa. Num país que tantas vezes prefere o silêncio educado, Canijo escolheu o ruído necessário.
E talvez seja por isso que, nesta manhã escura, o que sentimos não é perda — é inquietação. Porque o cinema que nos obriga a olhar para dentro nunca nos deixa exatamente como estávamos.

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