[“A Uma Terra Desconhecida” (To a Land Unknown), suspense, GRE/GER, 2024. De Mahdi Fleifel, Fyzal Boulifa e Jason McColgan, com Mahmoud Bakri, Aram Sabbah, Angeliki Papoulia; Vencedor dos Festivais de Helsínquia, Munique, Transilvânia e indicado para Cannes]
Por Raquel Azevedo *
Há filmes que abordam o drama dos refugiados através da dimensão política dos conflitos e há outros que preferem concentrar-se na experiência íntima daqueles que vivem entre fronteiras, sem um lugar onde verdadeiramente pertençam. “A Uma Terra Desconhecida” (To a Land Unknown), do realizador palestiniano Mahdi Fleifel, pertence a esta segunda categoria. É uma obra intensa, profundamente humana e emocionalmente devastadora, que transforma a história de dois homens num retrato universal sobre a perda, a sobrevivência e a esperança.

Os protagonistas são Chatila e Reda, dois jovens refugiados palestinianos que vivem em Atenas. Como milhares de migrantes, procuram uma oportunidade para chegar à Alemanha, onde acreditam poder iniciar uma nova vida. O plano parece simples: reunir dinheiro suficiente para comprar passaportes falsos e atravessar a Europa. Mas a realidade rapidamente destrói essa esperança quando Reda, dependente de drogas, perde todas as poupanças. A partir desse momento, os dois mergulham numa sucessão de escolhas desesperadas que colocam à prova a amizade, a dignidade e a própria sobrevivência.
Mahdi Fleifel evita qualquer romantização da condição de refugiado. As suas personagens não são heróis nem vítimas perfeitas. São homens marcados pelo trauma, pela frustração e pelo peso de um futuro constantemente adiado. Em vez de julgar, o filme convida o espectador a compreender.
Embora a Palestina nunca seja mostrada diretamente, a sua presença sente-se em toda a narrativa. Está nas memórias, nas conversas, nos silêncios e na identidade dos protagonistas. A terra perdida transforma-se num espaço emocional que continua vivo, mesmo quando já não pode ser habitado.
Atenas surge como uma cidade de passagem, onde milhares de migrantes permanecem presos entre o passado e um futuro incerto. Fleifel apresenta ruas degradadas, apartamentos sobrelotados e redes clandestinas que lucram com o desespero humano.

Visualmente, o filme aposta num realismo quase documental. A câmera acompanha de perto os protagonistas, criando uma sensação constante de proximidade e tensão. A fotografia privilegia espaços fechados e ambientes cinzentos que reforçam o sentimento de aprisionamento.
As interpretações de Mahmood Bakri e Aram Sabbah são extraordinárias, transmitindo vulnerabilidade e cumplicidade. Mais do que um filme sobre migração, “A Uma Terra Desconhecida” é uma reflexão sobre identidade, pertença e humanidade. Recorda que por trás de cada refugiado existe uma história, uma família e uma vida interrompida.
Apresentado na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes de 2024, o filme confirmou Mahdi Fleifel como uma das vozes mais importantes do novo cinema palestiniano. Com uma narrativa poderosa e um olhar profundamente humanista, afirma-se como uma das obras mais relevantes dos últimos anos sobre o exílio contemporâneo.

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