Top Boy, série, drama, UK, 2011-2023. De Ronan Bennett, com Ashley Walters e Kane Robinson. Vencedor de quatro prémios BAFTA. Disponível em Netflix.
Por Raquel Azevedo *
Top Boy não é apenas uma série sobre tráfico de droga, violência e criminalidade. É, sobretudo, um retrato duro de uma Londres que raramente aparece nos postais turísticos: uma cidade marcada pelas desigualdades sociais, pela precariedade, pela exclusão e pela luta diária de comunidades que vivem à margem da prosperidade britânica.
Criada pelo argumentista Ronan Bennett, a série nasceu em 2011 no Channel 4, com Top Boy: Summerhouse. Depois do cancelamento, encontrou uma inesperada segunda vida quando o rapper canadiano Drake, admirador da produção, ajudou a impulsionar o seu regresso. A Netflix recuperou o universo de Top Boy e lançou novas temporadas a partir de 2019.

A história desenvolve-se principalmente em Summerhouse, um bairro fictício no leste de Londres. No centro estão Dushane e Sully, interpretados por Ashley Walters e Kane Robinson (Kano). São duas personagens ligadas por anos de amizade, negócios, violência, rivalidade e sobrevivência.
Dushane procura construir poder e transformar o dinheiro obtido através do tráfico numa forma de ascensão social. Sully segue um percurso mais imprevisível, marcado pela violência, pela solidão e por uma relação cada vez mais complexa com aquilo em que se tornou. Nenhum dos dois cabe facilmente na categoria de herói ou vilão. É precisamente nessa zona moralmente desconfortável que Top Boy encontra grande parte da sua força.
Uma Londres dividida
A série utiliza o tráfico de droga como ponto de entrada para falar de problemas muito maiores. Habitação, pobreza, imigração, racismo, deportação, violência, ausência de oportunidades e transformação urbana atravessam constantemente as histórias das personagens.
Em Top Boy, o código postal onde alguém nasce pode determinar grande parte das oportunidades que terá.

Os jovens crescem rodeados por um sistema informal de poder que oferece dinheiro, estatuto e proteção, mas cobra um preço enorme. Para personagens como Jamie, Ats, Stef ou Jaq, entrar nesse mundo não surge simplesmente como uma escolha entre o bem e o mal. As decisões são condicionadas pelo ambiente familiar, económico e social.
A série não elimina a responsabilidade individual das personagens, mas obriga o espectador a observar as circunstâncias em que essas escolhas são feitas.
Juventude sem rede de segurança
Um dos aspetos mais perturbadores de Top Boy é a facilidade com que crianças e adolescentes são absorvidos pelo mundo do tráfico.
Os mais novos observam os homens que controlam as ruas e aprendem rapidamente que dinheiro significa independência e que reputação significa proteção. Ao mesmo tempo, descobrem que qualquer erro pode ter consequências irreversíveis.
Esta representação transforma Top Boy numa reflexão sobre abandono. Onde estão as instituições quando estes jovens precisam delas? Que alternativas existem quando a pobreza e a exclusão começam dentro de casa?
A série não apresenta respostas simples. Mostra antes um ciclo que se reproduz: os jovens de hoje tornam-se os homens que amanhã controlarão outros jovens.
Dushane e Sully: duas formas de poder
A relação entre Dushane e Sully constitui o coração dramático da narrativa.
Dushane pensa como um empresário. Quer crescer, negociar, investir e abandonar progressivamente a rua sem perder o poder que conquistou através dela.
Sully representa outra dimensão. É impulsivo e brutal, mas também profundamente humano em determinados momentos. A personagem transporta consigo as consequências emocionais de anos de violência.

Quanto mais poder conquistam, mais difícil se torna escapar ao sistema que ajudaram a construir. Essa contradição acompanha toda a série: todos querem sair, mas quase ninguém consegue realmente abandonar Summerhouse.
As mulheres de Top Boy
Embora o universo da série seja dominado por homens, algumas das personagens femininas oferecem perspetivas fundamentais.
Jaq, interpretada por Jasmine Jobson, destaca-se particularmente. É simultaneamente participante ativa no negócio e alguém obrigada a confrontar as consequências desse mesmo mundo sobre as pessoas que ama.
Lauryn, Shelley e outras mulheres mostram também como a violência ultrapassa os confrontos entre gangues. Entra nas casas, nas relações amorosas, na maternidade e nas estruturas familiares. A violência das ruas nunca permanece apenas nas ruas.
Realismo sem glamour
Visualmente, Top Boy apresenta Londres de forma fria e frequentemente claustrofóbica. Os prédios sociais, corredores, apartamentos, ruas e pequenos espaços comerciais tornam-se parte essencial da narrativa. A cidade deixa de ser cenário e transforma-se numa personagem.
A linguagem, os sotaques, a música e a presença de atores e músicos ligados à cultura urbana britânica dão à série uma identidade muito particular. O grime, o rap e a cultura das comunidades negras britânicas não funcionam simplesmente como decoração estética: fazem parte do mundo social que a série procura representar.

Apesar de mostrar dinheiro, carros e poder, Top Boy dificilmente apresenta o tráfico como uma verdadeira história de sucesso. Quase todas as conquistas são temporárias. Cada vitória produz uma nova ameaça e cada demonstração de poder aumenta o isolamento das personagens.
Quem é realmente o “Top Boy”?
O próprio título encerra uma ironia. Ser o Top Boy significa chegar ao topo da hierarquia da rua. Significa dinheiro, respeito e capacidade de controlar outras pessoas. Mas quanto mais a série avança, mais evidente se torna que esse topo é extremamente frágil.
Não existe estabilidade. Não existe segurança verdadeira. E dificilmente existe liberdade.
Sempre aparece alguém mais novo, mais ambicioso ou mais desesperado disposto a ocupar o mesmo lugar.
É por isso que Top Boy funciona para além do género policial. A série fala sobre poder, mas também sobre classe social, família, amizade, identidade e pertença. Mostra pessoas que tentam sobreviver num espaço onde as oportunidades são profundamente desiguais e onde o sonho de escapar pode transformar-se noutra forma de prisão.
No final, talvez a pergunta mais importante não seja quem consegue tornar-se o próximo Top Boy. A pergunta é porque continuam a existir comunidades onde chegar ao topo da rua parece, para alguns jovens, uma das poucas possibilidades de chegar a algum lado.

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