Eu, Voto

Alfredo Soares-Ferreira *

Na primeira pessoa, o voto poderia declarar-se uma arma de arremesso, de combate ou de frustração. Na sua vertente resignativa, o voto serviu para eleger personagens hediondas como Hitler, Netanyahu, Trump ou Bolsonaro. E quando conseguiu eleger Allende, como esperança libertadora do seu País, logo a conjura adversa dos suspeitos do costume iria conspirar, na sombra e depois às claras, para o derrubar.

Eu, Voto, me confesso culpado, por ser, ao mesmo tempo, um direito e um dever. A interpretação filosófica deste último, assume um efeito algo perverso, uma vez que é normalmente associado a um hipotético contributo para a procura de melhores soluções, ou para uma eventual participação na definição de opções. Há quem considere ainda que o voto é um imperativo de consciência, uma obrigação imperiosa, ditada quiçá por uma qualquer restrição moral ou relativa a uma crença.

Existe actualmente uma desorientação caótica dos alienados pelas regras do sistema. Entre eles pontuam os que defendem, possivelmente até acreditam, que o voto é a forma exclusiva de resolução das questões sociais imanentes do sistema neoliberal. E na verdade, o que se vê é que as democracias ocidentais, para além de se dedicarem a reproduzir violentas assimetrias sociais, inculcam e praticam a propaganda de uma unidade virtual da opinião pública para a deliberação política. O sentimento que fica, por exemplo, no apelo ao voto pela estabilidade, não é mais que a negação sistemática da dialéctica da luta de classes, que hoje significa, mais do que nunca, uma luta pela sobrevivência, de tal forma é violenta a asfixia do poder do capital. As regras do sistema determinam deliberações do Poder perfeitamente capturadas por grupos hegemónicos alheios à maioria.

Contudo, um dos perigos que as democracias tradicionais criaram, pela não-resposta aos cidadãos das suas necessidades prementes, assenta na convicção (naturalmente, sempre uma crença) de uma relativa menoridade cidadã, no que reporta particularmente à escolha dos seus representantes. Um dos mais destacados defensores desta tese, que considera a maior parte dos cidadãos como ignorante na matéria política, é o cientista político norte-americano Jason Brennan, um defensor do capitalismo e que teorizou acerca da ética e da racionalidade do acto de votar. “Contra a Democracia” e “Capitalismo, Porque Não?” são dois significativos títulos de obras da sua autoria e onde está patente o simplismo ideológico, ou até anti-ideológico, de que resulta o desprezo pela pessoa humana e dos seus direitos. Os libertários, ou partidários das ideologias meritocráticas, baseiam a sua ideia anti-social, naquele que é hoje possivelmente um dos entraves maiores ao desenvolvimento natural das sociedades, em direcção a um futuro de libertação, precisamente a extrema-direita. A aplicabilidade dos conceitos conduz, por exemplo, ao chamado “liberal libertário”, como se auto-classificou Javier Milei, que obteve, pelo voto, o poder na Argentina.

“Para as massas trabalhadoras em muitos países capitalistas, a obrigação de fazer uma escolha definitiva, entre a democracia burguesa e o fascismo”

Antonio Gramsci

Em vésperas da celebração de Abril, o Voto manifesta o seu descontentamento, por se sentir condicionado. A propaganda e o espectáculo representam as faces desse condicionamento. As manifestações subjacentes são, entre outras, os episódios patéticos e os “casos”, propositadamente fabricados para criar confusão e algumas peripécias constantes, sem qualquer conteúdo político. As sondagens constituem-se também como parte considerável do condicionamento. Quem as realiza e a forma como são apresentados os seus resultados, contribuem para definir e orientar o voto, e espelham a forma enviesada como a democracia burguesa funciona e determina uma eleição. Não são, entretanto, motivos suficientes para deixar de exercer um direito, como nos disse o filósofo italiano Antonio Gramsci. Nos seus “Cadernos do Cárcere”, escritos entre 1926 e 1937, o Autor afirma que se impõe, para as massas trabalhadoras em muitos países capitalistas, a obrigação de fazer uma escolha definitiva, entre a democracia burguesa e o fascismo, impelindo-as a defenderem o regime democrático, quando a facção mais reaccionária da burguesia o ataca num período ferozmente contra-revolucionário. Uma afirmação que nos dias de hoje ganha uma dimensão e actualidade notáveis.

Combater campos opostos é decerto tarefa acrescida para quem navega no grande rio da transformação social deste século, particularmente no Ocidente. Um combate contra o que parece ser o caminho mais ou menos evidente, que é a deterioração das democracias burguesas, e, um outro combate, contra a perversão neoliberal e a ideologia que lhe faz a cama. O voto, como expressão da vontade dos cidadãos não parece ser suficiente para desmontar o sistema, precisamente porque é normalmente apresentado como a única forma de intervenção possível em sistemas quase vedados à participação cidadã. O voto assume então uma espécie de “distração sustentável”. Por um lado, o cidadão tem oportunidade efectiva de decisão, depositando na urna a sua escolha. Mas, por outro lado, continua a ver que lhe é vedada a sua participação nas decisões fundamentais, porque já escolheu e confiou.

Por todos os motivos, mesmo os não declarados, eu voto, sabendo perfeitamente em quem não devo votar.

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Alfredo Soares-Ferreira
Engenheiro e Professor aposentado. Consultor e Perito-Avaliador de Projectos nacionais e internacionais para o Desenvolvimento e Cooperação.

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