A Sociedade das Sondagens

A opinião pública não existe…”
Pierre Bourdieu

Instituídas como um tipo particular de inquérito, suposto e universalmente aceite para estudar cientificamente a opinião pública, as sondagens têm vindo a dominar a atenção mediática, no espaço público, como uma das formas de “praticar democracia”. Seja pela suposta medida da satisfação, normalmente aplicada a um produto do mercado, seja pela auscultação dos cidadãos relativamente a este ou aquele cenário, a sondagem, pela forma como é aplicada, distorce normalmente a realidade e serve de justificação para medidas das administrações e governos, que muitas vezes guiam a sua acção ou para a popularidade, ou para justificação de determinada medida. De instrumento aparentemente pacífico a forma de dominação pelo pensamento vai um pequeno passo. Uma certa perversão democrática vai lentamente fazendo o seu caminho.

Três exemplos significativos de sondagens dos últimos dias. Na semana passada, uma sondagem para saber se devemos continuar a usar máscaras e outra para saber se o cidadão concorda com a “não intervenção” da NATO na guerra. Esta semana uma outra que equaciona a possibilidade de trabalhar 4 dias por semana. Normalmente a publicação dos resultados destas sondagens é acompanhada de fóruns, nas rádios (exemplos da Antena 1 e TSF). Veremos como se procura, através deste tipo de instrumento de inquirição, utilizar determinado tipo de opinião, transformando-o numa “arma” pouco ou nada democrática.

O que é uma sondagem. O método é científico?

Entre inquérito e sondagem pode existir uma diferença de pormenor. Geralmente o inquérito é mais utilizado em estudos científicos, enquanto a sondagem se aplica a estudos de opinião. Se a sondagem é um inquérito, nem todo inquérito é sondagem. Normalmente as sondagens são feitas a pedido de órgãos de comunicação social, partidos políticos ou organizações governamentais ou não-governamentais. Uma sondagem reporta, em princípio, a um estudo estatístico específico e, nesse sentido, visa estudar caraterísticas da população tal como ela se apresenta. A professora Paula Vicente, docente do Instituto Universitário de Lisboa, explica, um projecto de colaboração da Escola com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e o grupo Impresa Publishing (SIC e Expresso), que engloba a “recolha, tratamento e divulgação de dados sobre as atitudes e os comportamentos políticos da população portuguesa, através da realização de estudos de opinião (sondagens) a amostras representativas da população.”. Segundo a Autora, num “momento particularmente exigente do ponto de vista da qualidade da democracia em Portugal e na Europa, pretende-se contribuir para um melhor conhecimento do estado da opinião pública portuguesa.” O projecto alia, citando ainda a professora, “…a investigação académica à experiência de divulgação de sondagens, contribuindo para o rigor e qualidade do trabalho que é apresentado.”

O suposto valor científico das técnicas de aferição, enquanto medidor da opinião pública, baseia-se na premissa das percentagens, como resultado preciso daquela, num determinado momento da vida social. Esta é a posição dos institutos de sondagens. Todavia, mesmo que se possam considerar como científicas algumas metodologias, tal não acrescenta valor, nem ao método em si, nem aos resultados. O que na verdade acontece na prática dos dias de hoje, ou seja, que a frequência ditada pelo ritmo da prospecção vai determinar que as sondagens sejam, elas próprias, a própria opinião pública.

Para que servem as sondagens?

Uma questão nada despicienda, uma vez que parece existir, particularmente nas últimas duas décadas, uma tendência crescente para tornar o conceito de opinião pública sinónimo das sondagens de opinião. Essa tendência, justificada pela perspectiva de que a opinião pública pode ser reduzida a modelos quantitativos, manifesta-se por vezes na tentação de supor um governo baseado nas sondagens.

A serventia das sondagens é um tema pouco tratado, mas mereceria porventura mais atenção, dada a suposta perversão que está inerente, não ao instrumento em si, mas sobretudo à forma como é tratado, analisado e divulgado. Uma das vertentes provavelmente mais interessantes da questão é o facto, que parece evidente, de as empresas e institutos de sondagens atribuírem a si próprias um estatuto social muito particular e que deriva da circunstância de a sociedade moderna lhes reconhecer uma importância, ou relevância, que na realidade, só o é na aparência. A falácia funciona, uma vez que, por trás das empresas proprietárias está o poder primordial e determinante do capital. É a suposta autoridade para a formulação de proposições que leva, por exemplo, a apresentação de determinados candidatos como “vencedores antecipados”, utilizando muitas vezes a depreciação dos concorrentes, com esta subtileza, “…o candidato X não ultrapassa os tantos por cento”.

A constatação que é supostamente permitido que empresas privadas influenciem de um modo determinante, sem o devido escrutínio, aquele que é o sentido de voto dos cidadãos, faz algum sentido, particularmente em casos que são conhecidos. As sondagens, ou a grande maioria delas, criam uma espécie de cenário alternativo, num determinado processo político, um acontecimento para além da realidade, parecendo querer antecipar o resultado, “preparando” assim os cidadãos para o que possa vir a acontecer.

Inquirir a opinião do cidadão é uma forma de democracia participativa?

Para quem defende que as sondagens são uma das vertentes da democracia participativa, porque os cidadãos podem manifestar livremente a sua posição, nem determinado momento da vida política do seu País, convém atentar, quer no verdadeiro objectivo, quer nos objectivos ocultos do processo.

O tipo de perguntas que se coloca numa sondagem, esperando uma resposta uniforme, tem pelo contrário um efeito perverso que tem a ver com a diferenciação social dos inquiridos. “A verdade científica é submetida às mesmas leis que a ideologia”, afirma Pierre Bourdieu, a propósito dos objectivos, resultados e efeitos das sondagens. Numa comunicação de 1972, publicada no ano seguinte no número 318 da revista Les Temps Modernes, de Janeiro de 1973, a que deu o curioso título “A opinião pública não existe”, coloca três postulados acerca das pesquisas de opinião, que, entretanto, se dedica a refutar. O primeiro reporta à questão que a produção de uma opinião está ao alcance de todos. O segundo supõe que todas as opiniões têm valor. O terceiro tem a ver com o facto de a mesma questão ser colocada a um universo indiferenciado. A rejeição dos postulados é a consequência natural de que, (1) nem toda a gente tem uma opinião, (2) a acumulação indiscriminada de opiniões não faz obrigatoriamente nada de substantivo, (3) não existe à partida um acordo sobre as questões que devem ser colocadas. E conclui ainda o que considera ser um dos efeitos mais perniciosos da pesquisa de opinião e que consiste precisamente em tentar pôr pessoas a responder a perguntas que elas, de facto, não colocaram.

Retomando os exemplos das três sondagens referidas, podemos constatar algumas perversões inerentes. No caso da primeira, inquirir o cidadão se está de acordo com o uso da máscara, é, para além da inutilidade prática da pergunta, uma falácia enorme, uma vez que a grande maioria das pessoas só pode responder à questão de uma forma emocional, afastando qualquer credibilidade ao caso. Na segunda, parte-se do princípio que a dita organização não está a intervir na guerra, o que é, no mínimo, discutível, distorcendo assim a questão colocada. Na terceira, a primeira questão que se coloca à discussão é “poderão as empresas suportar…?”, anulando obviamente a validade da premissa, uma vez que a maioria das opiniões vai ser o “não”.

Na realidade, as sondagens nada têm a ver com uma eventual democratização social. Nem a participação, nem o processo, são democráticos, enquanto tal. Podem até, em determinados aspectos, ser consideradas como uma perversão dos sistemas políticos, pela desvirtuação que os seus resultados e efeitos podem constituir, nomeadamente na influenciação, sem o devido escrutínio, do sentido de voto dos cidadãos.

A democracia participativa é uma forma de exercício do poder, baseada na participação dos cidadãos nas tomadas de decisão política, a todos os níveis e constitui possivelmente, no momento presente, o maior desafio das sociedades modernas.

About the Author

Alfredo Soares-Ferreira
Engenheiro e Professor aposentado. Consultor e Perito-Avaliador de Projectos nacionais e internacionais para o Desenvolvimento e Cooperação.

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