A morte e o disparate

Por Alfredo Soares-Ferreira

Sendo a morte já de si um disparate, ao que parece e para já, inevitável, o disparate não padece da mesma enfermidade, a tal que um dia leva ao fim. Padece de outra, sim senhor, ela mesmo consequência da falibilidade do ser humano. Hegel diz, na “Fenomenologia do Espírito” que, “A única obra e acção da liberdade universal é, por conseguinte, a morte, … da morte mais fria e mais banal, sem mais significado do que o corte de uma cabeça de couve, ou do que um gole de água”. Há quem, nestas alturas da morte de alguém com destaque social e político, se coloque sempre em bicos de pés, mostrando a sua natural propensão para o disparate. Apeteceria dizer, pobres deles, não sabem o que fazem. Mas tal não corresponde à realidade, eles sabem bem o que dizer, insistem no disparate, essa é a sua enfermidade permanente. não parece haver, para ela, qualquer cura.

A morte de Mikhail Gorbachev provocou uma onda de solidariedade para o Homem que acabou com a URSS. Seria provavelmente fastidioso, porventura até desnecessário, evocar o percurso do falecido, já muito foi escrito sobre ele e a sua obra. Recorda-se apenas que, com a queda do império soviético, ocorreu o desmantelamento do chamado Pacto de Varsóvia, uma das condições (dizia-se) absolutamente necessárias para o tão desejado desarmamento. Pese o facto de as suas intenções serem boas (é sempre difícil avaliar), a realidade demonstrou que acabou por abrir caminho a uma casta de burocratas pouco credíveis, à corrupção e a… Putin.

Acabou um império. Contudo, o outro, bem mais influente e poderoso, continuava e continua de pé, causando os males que são conhecidos em todo o mundo, incluindo na actualidade, bem presente no nosso quotidiano.

Contudo, não deixa de ser curiosa a reacção de toda a Direita mundial, ucranizada e americanizada, no que parece ser o apoio ao que foi o reinado do falecido. Ele é hoje, na visão dessa gente, o herói que representava o “ideal comunista”, da liberdade, igualdade e Paz. Tudo muito estranho, não é verdade?

O disparate

Nestas alturas, o inefável Presidente da AR, que foi, durante anos Ministro dos Estrangeiros (Negócios, diz-se), vem à boca de cena “disparar” a sua verborreia habitual e conhecida, que é, exactamente e para todos os efeitos, igual à de toda a direita e extrema-direita. Diz o Senhor, basicamente, que a melhor forma de preservar a memória do falecido é defender a Ucrânia. Aliás, sobre qualquer assunto que se lhe apresente, a melhor forma de o ultrapassar é mesmo defender a Ucrânia. O mestre da ucranização em Portugal (se calhar o epíteto é injusto, mas enfim…) aproveita todas as oportunidades para repetir disparates e vulgaridades, pensando que, com isso, está a preparar outros voos, que lhe reserva a mediocridade da política nacional e europeia.

Outro disparate

Diz o actual MNE, “Em tempo de guerra, a acção e o contributo para a Paz do último líder da URSS devem, mais do que nunca, ser um exemplo a seguir”. O que pode parecer um dito aparentemente pacífico, acaba por não o ser, vindo de quem vem. Se há pessoa que sem tem multiplicado a dizer disparate sobre disparate, é este Ministro, defensor acérrimo da políticas norte-americanas, que diz democráticas e pró-liberdade. Ele é ainda um dos pontas de lança das irresponsáveis políticas europeias das sanções criminosas contra os cidadãos. Então os contributos que o dito Senhor terá dado pela Paz, como diz Cravinho (que é o que diz Santos Silva) são o quê, afinal? Pelos vistos são, mais armamento, mais dinheiro não se sabe bem para quê, mais sanções. Será que o apelo constante à guerra e à agressão são contributos para a Paz?

Tanto disparate.
Tanta hipocrisia.
Tanta ignorância.
Esta Europa diz o mesmo, em uníssono, pela voz de uma líder não-eleita, que é quem “manda” na Europa, (juntamente com o secretário-geral da NATO). Veja-se o expoente máximo da vulgaridade: Gorbachev, um “líder de confiança e respeitado” que “teve um papel crucial para acabar com a Guerra Fria e derrubar a Cortina de Ferro” e que “abriu o caminho para uma Europa livre”.

O desmantelamento

Diz-se que o império, dito soviético, foi desmantelado pelo falecido. E que hoje há quem o queira erguer de novo. Tudo conjecturas de quem está ao lado do verdadeiro império que teimosamente se impõe, a nível mundial, e que domina, oprime e subjuga Estados e povos, através de um sistema que só provoca fome e miséria e que promove milionários e fortunas desmedidas. E isto não são conjecturas, mas sim a realidade concreta. O verdadeiro perigo está em quem faz a guerra e a promove, todos os dias e a toda a hora. Quem aceita como normal a corrupção e o negócio das armas.
O verdadeiro desmantelamento é o desarmamento imediato e total, em todo o mundo.
Os que (ainda) estão vivos devem deixar de dizer disparates e empenharem-se na Paz.
Todavia, acreditar que estes que hoje disparatam são capazes de mudar, é porventura o mesmo que acreditar na quadratura do círculo.

About the Author

Alfredo Soares-Ferreira
Engenheiro e Professor aposentado. Consultor e Perito-Avaliador de Projectos nacionais e internacionais para o Desenvolvimento e Cooperação.

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