Respostas, medidas e tricas

O tempo vai passando e a situação que era urgente deixa de o ser, por tibieza e incúria. Enquanto se assiste à mais completa indiferença face às desigualdades e ao empobrecimento progressivo dos cidadãos, cansados e atafulhados em dívidas e propaganda, as grandes companhias e empórios vão acumulando rios de dinheiro. O Governo da República apresenta medidas e pretensas respostas à crise em que entrou de livre vontade. A responsabilidade que lhe devia caber na protecção dos seus concidadãos é, uma vez mais, afastada, para dar lugar ao acato burocrático e ao engano metódico. As tricas em que se envolveram ministros e secretários, são, neste momento e cada vez mais, a realidade de um governo triste e de um País sempre adiado.

Por Alfredo Soares-Ferreira *

São já 2 milhões e 400 mil portugueses abaixo do limiar da pobreza. A resposta a estes números é exemplar: a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza está bem congelada, em qualquer gaveta, provavelmente na das Finanças. Aprovada a 16 Dezembro 2021, com um horizonte alargado até 2030, entendida pela Administração como “…um instrumento que visa concretizar uma abordagem multidimensional e transversal de articulação das políticas públicas tendo em vista a erradicação da pobreza”. E, como tal, com o objectivo da “redução da taxa de pobreza para 10% da população, o que significa retirar 660 mil pessoas da situação de pobreza até 2030”, palavras da Ministra de Estado e da Presidência, que, ao tempo, destacou ainda a meta de “reduzir para metade a pobreza das crianças, o que significará retirar 170 mil crianças desta condição durante o mesmo período de tempo.” Passados mais de 9 meses, com as condições de vida agravadas por todos os motivos, este governo não foi capaz de parir uma única medida da sua própria “estratégia”.

As questões da pobreza

Segundo notícia do Jornal Público, de 15 de Setembro, com o título “Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social”, o nosso País apresenta uma percentagem de 22,4% da população em risco de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat.

O “respeito” pelos mais velhos

Uma notícia do DN de 26 de Setembro alerta para o facto de existir um défice de 4500 camas para cidadãos séniores em Portugal e constata que a maior parte da oferta de lares para idosos está no sector social e cooperativo, IPSS e Misericórdias. Acrescenta o redactor que “… a maioria dos idosos não tem capacidade financeira para pagar lares e há falta de recursos humanos. Mas a necessidade de cuidados assistidos vai continuar a aumentar.” E ainda, que “…tanto operadores como analistas do mercado consideram manifestamente insuficiente quando Portugal tem 2,4 milhões de pessoas com 65 anos ou mais e cerca de 700 mil acima dos 80”.

Um dos indicadores que mais deveria preocupar qualquer governo que preze o cuidado dos cidadãos mais velhos é precisamente a forma como responde a estas carências. Um governo que parece ter como único objectivo palpável a resposta ao défice e à dívida, nem sequer saberá, por exemplo, que a taxa de ocupação dos lares portugueses é, neste momento, de 91%, segundo dados de Março último, da consultora Dun & Bradstreet.

O que seria de esperar do Governo, para cuidar destes cidadãos? Em primeiro lugar, a resolução completa das carências em instalações e equipamentos e, em segundo lugar, a adopção de uma política energética particularmente direccionada para a erradicação da designada “pobreza energética”, que abrange 20% da população que não consegue suportar os encargos para garantir algum conforto térmico em casa. A este propósito, a Associação Ambientalista Zero alertava, em Maio passado, para um atraso de 19 meses, na adopção das medidas de promoção da eficiência energética.

O desrespeito pelos mais velhos é mais uma marca do neoliberalismo e, naturalmente, de administrações e governos que seguem a sua cartilha.

As questões aéreas

O centrão voa pelos ares e entende-se em terra, sobre um qualquer aeroporto. Ou, mesmo que não se entenda, faz que se entende, em mais uma demonstração de vazio de ideias e soluções e após milhões e milhões gastos, em estudos, anúncios e promessas. Na verdade, Governo e PSD, não ser entendem. Estendem-se ao comprido, no que, desde há muito tempo, representa a mais completa demonstração de incapacidade, incompetência, inoperância e subordinação completa aos interesses instalados, neste caso, da multinacional francesa Vinci, a quem foi entregue, em 2013, a concessão das infraestruturas aeroportuárias por 50 anos. Sem qualquer estratégia que não seja o seguidismo em relação aos interesses privados, atestada nos recentes encontros entre Costa e Montenegro para decidir uma hipotética solução, o centrão voa mesmo muito baixinho.

Uma vez mais, navegação (aérea) à vista.

O desperdício da palavra

Muitas vezes dizemos de alguém, que lucraria mais em estar calado, em vez de continuamente perorar sobre tudo e mais alguma coisa, numa tentativa, por vezes patética, de chamar sobre si a atenção. Alguém que ocupa o cargo mais relevante da República deveria ter a prudência e algum recato, aconselháveis em casos que tal. Ora com Marcelo acontece precisamente o contrário. Não se incomoda com Bolsonaro, participando na farsa de uma cerimónia transformada em comício de campanha. Não sabendo bem o que o incomoda, vai distribuindo palavras, mais ou menos soltas e vazias, possivelmente para tentar marcar a sua agenda própria, que pouco ou nada tem a ver com os reais problemas dos seus concidadãos. Talvez o incomode, a acreditar na sua “inocência”, sair de cena, sem o tal aeroporto.

Entretanto, na rádio, um comentador ocasional diz, a propósito das eleições italianas, que a “UE tem muita força para lidar com os ataques à Democracia”, falando dos erros dos partidos “tradicionais” e fazendo voto de simpatia pelo bloco central, afirmações típicas de quem ocupa o espaço mediático, julgando que tem opinião e que fala em nome de muita gente, afinal mais um desperdício de palavras, que mais valera o vento as levasse, sem pousarem.

As palavras podem ser perigosas. Goethe alertava quão perigoso poderia ser aquele que não tem nada a perder. Os que mais falam, nesta sociedade do espectáculo, são os que pouco têm para dizer a não ser o eco da propaganda. Daí o desperdício da palavra.

O fascismo ao pé da porta 

Uma admiradora confessa de Mussolini ascende ao Poder em Itália, ajudando a compor um quadro negro, num país assolado por vagas de imigração e pela conjugação das desastrosas políticas neoliberais, com incidência particular na liberalização do mercado de trabalho. A insatisfação crescente e o empobrecimento progressivo dos cidadãos, aliados à falta de alternativas à Esquerda, conduziu ao panorama actual, um sinal assustador do que pode vir a acontecer noutros países desta Europa à deriva e completamente subordinada à estratégia americana de uma política de guerra permanente.

Com o fascismo a entrar pela porta da frente, quais serão as respostas e medidas para tentar minimizar os custos inerentes? As tricas e remoques parecem, aqui por casa, mais importantes que acções decisivas. Pobres sinais.

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Alfredo Soares-Ferreira
Engenheiro e Professor aposentado. Consultor e Perito-Avaliador de Projectos nacionais e internacionais para o Desenvolvimento e Cooperação.

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