O sindicalista Alberto Alves Carneiro e a Cooperativa do Povo Portuense

Opinião de Luís Carvalho

No seio dos colaboradores d’A Voz do Operário entre 1962 e 1968 salienta-se o nome de Alberto Alves Carneiro. Era um antigo operário gráfico e sindicalista, ainda do tempo da 1ª República, que tinha sido presidente da Cooperativa do Povo Portuense.

Sindicalista

Filho de um militante ferroviário, Alberto Alves Carneiro nasceu no Porto, em 1895. E aí viria a falecer em 1969. Foi um elemento destacado do antigo movimento sindical que existia em Portugal antes da ditadura de Salazar.
Delegado ao congresso da CGT (Confederação Geral do Trabalho) em 1922 e à conferência da OIT (Organização Internacional do Trabalho) em 1929, foi secretário-geral da Federação das Organizações Operárias do Porto. Foi também dirigente do antigo Partido Socialista Português.

Uma das causas em que se empenhou foi a defesa do limite de horário de trabalho, importante fator de qualidade de vida. Em 1919 tinha sido decretada uma lei que previa na indústria e comércio um horário de 8 horas diárias. Mas não se cumpria. Em 1930 Alberto Carneiro denunciava o caso dos mineiros de carvão em S. Pedro da Cova, no distrito do Porto: ainda estavam sujeitos a um horário de 12 horas (República Social, 08/02/1930, p.2).

À semelhança de muitos sindicalistas da sua geração, Alberto Carneiro salientou-se também no campo das associações mutualistas. Chegou a ser presidente da Liga das Associações de Socorro Mútuo do Porto.
Embora com um alcance limitado, o mutualismo teve um papel histórico muito importante: proporcionou apoios sociais e cuidados de saúde a milhares de pessoas, quando ainda não existiam os atuais serviços públicos.
Alberto Carneiro tornou-se colaborador do antigo diário Comércio do Porto. E foi dirigente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Publicou dois livros sobre biografias de militantes operários portuenses: o marceneiro Francisco Viterbo de Campos (falecido em 1904) e o chapeleiro João Pinto Maravilhas Pereira (falecido em 1951).

N’A Voz do Operário

Alberto Carneiro colaborou neste jornal já no final da vida. Aqui partilhou memórias e recordou alguns antigos sindicalistas, como o operário tabaqueiro portuense Inácio de Sousa (falecido em 1914). Mas também abordou algumas questões atuais na área do associativismo.
Com César Nogueira, de Lisboa, e José Gíria, da Covilhã, fez parte de um conjunto de ex-dirigentes do antigo Partido Socialista Português que na década de 1960, já com uma idade avançada, ainda aqui deram o seu contributo.

Em 1957, Alberto Carneiro veio a Lisboa visitar a sede d’A Voz do Operário numa delegação da Cooperativa do Povo Portuense. Foi um momento de confraternização entre duas instituições congéneres, com velhas relações de amizade. Nesse encontro compareceram também destacados cooperativistas e opositores à ditadura em Lisboa, como Desidério Costa (dirigente da Caixa Económica Operária), Moisés da Silva Ramos (então presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses) e António Sérgio (histórico paladino do cooperativismo em Portugal).

Estas presenças estiveram decerto relacionadas com a importante colaboração que Alberto Carneiro mantinha num espaço de afirmação democrática: o Boletim Cooperativista, fundado em 1951 sob a égide de António Sérgio.

A Cooperativa do Povo Portuense


Entre 1949 e 1958, Alberto Alves Carneiro foi o presidente da direção da Cooperativa do Povo Portuense, fundada por operários a 18 de março de 1900, num aniversário da Comuna de Paris. Em 1906 já era uma florescente cooperativa de consumo e produção. Tinha uma unidade industrial de tipografia, onde os operários já usufruíam do horário de 8 horas de trabalho. Tinha uma sapataria e duas mercearias no Porto e mais uma mercearia em Matosinhos. Tinha serviços funerários e de crédito e já somava mais de mil sócios. (A Voz do Operário, 01/04/1906, p.1)

Tornou-se a grande associação operária da cidade do Porto – como A Voz do Operário em Lisboa. A cooperativa do Povo Portuense apresenta-se hoje com cerca de 18 mil sócios. Atua na área da cidadania e proteção social, através de atribuição de subsídios de funeral, da prestação de cuidados de saúde nas suas clínicas e ao domicilio. Desenvolve atividades locais de carácter cultural, desportivo e formativo.

Monumentos vivos

À semelhança da sede d’A Voz do Operário, a sede da Cooperativa do Povo Portuense, construída de raiz e inaugurada em 1914, é um monumento do movimento operário, do associativismo popular e da cidadania em Portugal. O exemplo inspirador tinha sido a Maison du Peuple (Casa do Povo) de Bruxelas. Encomendada pelo antigo Partido Operário Belga, foi inaugurada em 1899.

Além de espaço para reuniões políticas, funcionou como sede de uma grande cooperativa, com padarias, mercearias, lojas de roupa e tecidos, talhos, armazéns de carvão, café, biblioteca, centro de saúde, salão de festas. (Maison du Peuple de Bruxelles, Souvenir du XXV anniversaire, 1907)

Acabou sendo demolida em 1965, num tremendo desprezo pela história da classe trabalhadora e pelo intrínseco valor arquitectónico do edifício. Tinha sido um projeto de um dos mais conceituados arquitectos belgas, Victor Horta. As sedes d’A Voz do Operário e da Cooperativa do Povo Portuense continuam de pé e vivas! (Fonte: A Voz do Operário)

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Diário 560
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