O grau zero no discurso político

Alfredo Soares-Ferreira *

Uma recitação improvável de gostos pessoais, da parte do Presidente e do Primeiro-Ministro, pode ser motivo de alguma preocupação, no que reporta à constante degradação do discurso político, a nível nacional. Mas que decerto não escapa à motivação generalizada do que é hoje o diálogo político entre instituições deste ocidente profundo, que continua a navegar nas águas turvas da mediocridade e que determina, em larga medida, o relacionamento com os cidadãos.

A propósito de uma reunião do Conselho de Estado foi criado um ambiente de notícia e comentário, típico de situações do género e que, gerado no campo mediático, não parece encontrar grande interesse nos cidadãos, preocupados com as situações em que o dia os fustiga, na sua vida do dia-a-dia e às quais as respostas do Poder raramente são suficientes. Este órgão de soberania foi criado, através da revisão constitucional de 1982, após a extinção do Conselho da Revolução, originário da Revolução do 25 de Abril. É um órgão político de consulta do Presidente da República, por ele presidido e competem-lhe pronunciamentos sobre um conjunto de actos da responsabilidade presidencial, para além do aconselhamento “no exercício das suas funções, sempre que ele assim o solicite”.

Ora, nem uma coisa nem outra, terão a ver com a polémica, artificialmente instalada pelo “exército” de especialistas contratados para a “fabricação” de “factos políticos”, uma designação comumente aceite para a nova etnia da pós-verdade, formada por comentadores, politólogos, directores de estações de rádio e TV. A classificação de “exército” tem todo o cabimento, uma vez que parece obedecer a uma voz de comando de sentido único e unívoco, de orientação conhecida e, como a própria origem latina o legitima, lhe confere as características de “colocar em prática”, “pressionar” e, naturalmente, “adestrar”.

Costa entra em silêncio prolongado,
Marcelo não gosta.
O dito exército faz a sua função,
acrescentando ao silêncio
todo o necessário ruído,
induzindo na população
a necessária pressão

A qual “obriga” o Presidente a introduzir a questão do “gosto”, aqui na forma de um pathos, característico de uma sociedade onde os mecanismos da propaganda criam e fomentam a emoção induzida, alimentando a política do parece ser, mesmo que não o seja.

Espinosa opinou, no “Tratado Político”, sobre a forma de pensar baseado nos sentimentos, que “os filósofos concebem os homens, efectivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem.” Na mesma linha, havia ido Maquiavel, ao contrapor o dever-ser à realidade efectiva da coisa.

Perde-se uma oportunidade (mais uma) para estar calado, a tal asserção popular que ganha foros de superioridade relativa e que, de uma certa forma, legitima a sua utilização. Com uma dose mínima de populismo, poder-se-ia afirmar isso mesmo e aconselhar, à margem do Conselho, que as funções sejam exercidas para cuidar dos cidadãos, um exercício que parece complicado e de difícil interpretação para actores com pouca preparação para tal.

A evocação de um discurso de grau zero é válida, nomeadamente, para o Presidente. Analise-se o título de uma notícia desta semana da CNN Portugal, “Marcelo revela que Costa “gosta de romances” (não confundir com “aventuras”) e que os dois foram, são e vão ser muito “amigos”, “As amizades não se deixam cair“. Nem é necessário ir ao conteúdo, para perceber. O grau zero pode medir ainda a utilidade do discurso do cargo presidencial. Uma referência bastará para o Homem que fala todos os dias, várias vezes ao dia, sobre toda e qualquer matéria e que, por exemplo, afirmou sobre a questão da TAP, “Neste momento não tenciono falar desse ou de outros temas. E quando tencionar falar, falarei“.

Das várias peças de discurso inútil, contudo pernicioso, anotemos esta do poderoso Observador, de finais de Março deste ano: “A anatomia da reconciliação, 32 minutos, dois amigos e uma secretária de madeira no Caribe”. Nem importará citar o contexto, o estilo é mais que suficiente. O mesmo jornal, dizia, em Maio passado, “Costa perdeu um amigo até na Europa”, referindo-se a Marcelo.

O zero pode ser atribuído ainda, sem qualquer favorecimento, ao Presidente católico, que em tempos se fartou de classificar pessoas e entidades, quando, na sua última campanha afirmou, “campanhas, se Deus quiser, não haverá mais nenhuma”, ou, “se Deus quiser está nas mãos de Deus”.

É pois, atolado em tal pântano, que o cidadão contribuinte “navega”. Com rendas a subir, casas a faltar e a “desaparecerem”, propina para pagar, ordenado a terminar antes do fim do mês, ainda é “fustigado” com a loquacidade de membros efectivos do referido “exército”, em recente debate da CNN Portugal. Estão nesta linha os jovens liberais com “Iniciativa”, Carlos Guimarães Pinto, Pedro Brinca e Paulo Ferreira, que proclamaram a insofismável “verdade” de que as subidas dos salários reais são prejudiciais no combate à inflação, porque prolongam a sua manutenção acima dos 2% e forçam o BCE a ter taxas de juro mais elevadas.

A estrelinha que os parece guiar, brilha hoje bem alto, ao contrário daquela do Jorge de Sena: “Uma Pequenina Luz”, aquela que tal “… como a exactidão / como a firmeza / como a justiça. / Apenas como elas. /… Aqui… / no meio de nós. / Brilha”.

Infelizmente.

(Fotos: Reprodução de “Sessão do Conselho de Estado”, de Georgina de Albuquerque, 1922. – Conselho de Estado de Julho de 2023, Foto Miguel Lopes/Presidência da República)

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Alfredo Soares-Ferreira
Engenheiro e Professor aposentado. Consultor e Perito-Avaliador de Projectos nacionais e internacionais para o Desenvolvimento e Cooperação.

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