Imprensa no tempo da ditadura: a revista da Casa do Alentejo

Por Luís Carvalho *

Foi em plena ditadura que a agora centenária Casa do Alentejo lançou o seu primeiro órgão de imprensa.

O ano era 1935. E teve Inicialmente o formato de jornal, antes de se tornar numa revista.1

Não obstante o contexto repressivo e a sujeição a censura prévia, teve um destacado antifascista como diretor ao longo de quase 40 anos: desde 1937 até 1975.

Era o professor Vitor Santos, um democrata republicano. Em 1931, já ele surgia como dirigente concelhio, no Redondo, de uma primeira frente de oposição à ditadura: a «Aliança Republicana-Socialista».

No ano seguinte, passou a ser o diretor do principal título de imprensa antifascista que se publicava legalmente no Alentejo, o jornal «Democracia do Sul», sediado em Évora. E nessa responsabilidade se manteria por mais de duas décadas – até 1955.

Em 1934, foi um dos fundadores de um movimento de intelectuais antifascistas, o «Grupo de Renovação Cultural» e de um jornal nessa linha, o «Gleba».

Em 1945, participou na fundação do MUD. E, em 1949, na campanha eleitoral de Norton de Matos.

Sindicalistas

A acompanhar Vitor Santos, a revista da Casa do Alentejo teve sucessivamente dois democratas como redatores, ambos oriundos do antigo movimento sindical livre. Entre 1943 e 1946: foi o velho socialista José Gregório de Almeida. Desde 1946 até 1975: foi o comunista Fausto Gonçalves.

Tinham ambos liderado a Federação Portuguesa dos Empregados no Comércio. O primeiro entre 1913 e 1915 e novamente entre 1925 e 1929. O segundo entre 1921 e 1923.

Além disso, José Gregório de Almeida foi presidente do antigo Partido Socialista Português e seu deputado, no tempo da 1ª República. E foi presidente da direção da sociedade A Voz do Operário, já em tempo de ditadura.

Quanto a Fausto Gonçalves, antes de aderir ao PCP, tinha sido dirigente da antiga Juventude Socialista, sob a 1ª República.

Colonialismo

Em matéria de conteúdo, a revista da Casa do Alentejo conseguiu focar-se na causa regionalista. Manteve um relacionamento institucional com autoridades políticas do regime, em particular governadores civis e autarcas do Alentejo. Mas, de uma forma geral, conseguiu evitar reproduzir propaganda salazarista.

Uma excepção foi o alinhamento com posições colonialistas, particularmente na altura em que o “império” se começou a desfazer, a partir de 1954.

Não reproduziu qualquer elogio a Salazar, alegando que “acerca da vida política deste estadista já a imprensa se ocupou largamente”

Afinal, até muito tarde, essa foi uma matéria em que muitos na oposição partilharam pontos de vista com o regime. Particularmente os mais influenciados pelo ideário republicano, para o qual o colonialismo tinha sido uma questão central, desde os tempos da oposição à monarquia.

Em 1954, a Índia tomou dois enclaves do território ali colonizado pelo Estado português: Dadra e Nagar Haveli.

Nessa ocasião, a revista da Casa do Alentejo enalteceu o “patriótico discurso do sr. presidente do conselho, sobre os nossos territórios da Índia”. E relatou que a direção desta Casa enviou então uma mensagem a Salazar, na qual dizia que “o estado da Índia é, pelas razões que vossa excelência preclaramente expôs, tão nosso quanto nossas são as outras províncias ultramarinas e as que, também, constituem a velha e histórica metrópole”.

Um contraste evidente com os elogios que, mesmo sob a ditadura, a revista da Casa do Alentejo expressou a um dos mais destacados antifascistas alentejanos, o professor Bento de Jesus Caraça.

A direção da Casa do Alentejo manifestou também a Salazar o “seu maior regozijo pela magistral defesa que, dos nossos vinculados direitos, vossa excelência soube fazer, com notável invulgaridade”. E prestou ainda o seu “incondicional apoio às palavras e em especial à acção de Vossa Excelência”.2

Sete anos depois, a Índia pôs fim a toda a ocupação portuguesa naquele ponto da Ásia.

Dessa vez, a revista da Casa do Alentejo deu a própria capa ao colonialismo.

Protestou contra o que chamou de “criminosa atitude da União Indiana relativamente ao estado Português da Índia”. Fê-lo manifestando um “grande repúdio” e uma “veemente indignação”.

Foi mesmo ao ponto de condenar a Índia por um “acto contra o direito, anti-humano e anticristão” . E falou ainda em crime “contra a nossa dignidade e soberania”, o qual não podia deixar de ser condenado “pela consciência de todo o Mundo civilizado”.3

Carmona e Salazar sem elogios

As mortes dos chefes da ditadura estiveram entre os momentos em que a revista da Casa do Alentejo conseguiu marcar uma posição mais distante.

Em 1951, quando faleceu o presidente Carmona, o boletim recordou-o como filho de uma alentejana, oriunda de Montemor o Novo. Evocou ainda o seu percurso como estudante e como comandante militar em Évora, e a sua relação institucional com esta coletividade.

Nas funções de presidente da República, Carmona visitou a Casa do Alentejo por três vezes, em 1930, 1934 e 1940. E condecorou-a com o grau de oficial da ordem de benemerência, em 1941.

Mas posto isto, o Boletim não teceu um único elogio ao papel político de Carmona, nem ao regime que ele simbolizou.4

No caso da morte de Salazar, a posição foi ainda mais seca e distante.

Institucionalmente, deu conta que “a direção e o conselho regional da Casa do Alentejo enviaram telegramas de condolências”. E que “a bandeira nacional e a da nossa colectividade estiveram içadas a meia haste durante os dias de luto decretados pelo governo”.

Mas não reproduziu qualquer elogio a Salazar, alegando que “acerca da vida política deste estadista já a imprensa se ocupou largamente, pondo em relevo a sua personalidade quer no campo nacional, quer no plano internacional”.5

Um contraste evidente com os elogios que, mesmo sob a ditadura, a revista da Casa do Alentejo expressou a um dos mais destacados antifascistas alentejanos, o professor Bento de Jesus Caraça. Quer por ocasião da sua morte, em 1948; quer depois, aquando do 70º aniversário do seu nascimento, em 1972.

Elogios certamente limitados pela censura, mas reveladores de uma opção bem clara.


1 Ao princípio, este órgão de imprensa chamou-se «Boletim do Grémio Alentejano», pois era esse o nome original da coletividade. Mas depois a ditadura reservou o termo “grémio” para associações patronais, e em 1939 passou a ser o «Boletim da Casa do Alentejo». Mais tarde, já em 1960, optou por mudar para «Revista Alentejana».

2 Boletim da Casa do Alentejo, Junho 1954, pág. 11.

3 Revista Alentejana, Janeiro 1962, pág. 1.

4 Boletim da Casa do Alentejo, Maio 1951, pág. 3.

5 Revista Alentejana, Agosto 1970, pág. 5.


* Luís Carvalho é investigador.

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Conteúdos apurados pela Redacção do Diário 560, com auxílio de colaboradores e agências.

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