O fruto da paixão

A fala com que hoje nos expressamos tem evoluído ao longo dos tempos e prossegue a sua evolução porque recebeu e continua a receber influências de outros idiomas de várias partes do mundo. Embora a matriz gramatical da língua portuguesa seja o antigo latim, são muitos os topónimos e as palavras provenientes dos povos da Índia, da China, da África, do Brasil, a par de galicismos e anglicanismos que atualmente enxameiam o nosso linguajar quotidiano. Outrossim, o português, que no século XVI era a língua franca das terras limítrofes do Oceano Índico e do Sudoeste do Pacífico, introduziu vocábulos no indonésio, no malaio, no cingalês, no hindi, no concani, no tétum, no chinês, no japonês e até no coreano.

Vem isto a propósito do termo “maracujá”, cuja proveniência deriva do tupi-guarani, falado em terras de Vera Cruz. O seu significado é, mais ou menos, “fruta contida numa vasilha constituída pela sua própria casca”. Nada de mais certo e concreto.

Todavia, na maior parte das línguas europeias o maracujá é designado por fruto-da-paixão ou martírio. Porquê? Ora porque os missionários jesuítas na sua ânsia de converterem os ameríndios, relacionaram a flor do maracujá com o episódio bíblico da paixão de Cristo. Lá está a proeminente cor roxa, os filamentos que simbolizam a coroa de espinhos, os três pistilos que fazem lembrar os três pregos utilizados na crucificação e os cinco estames que vêm mesmo a calhar para as cinco chagas de Cristo. As pétalas são apenas dez, mas o problema resolveu-se. Elas representam dez dos doze apóstolos, visto que o Judas ficou de fora por razões óbvias e também o Pedro, visto que, por três vezes, negou o seu Senhor.

E pronto, a história resultou. Chegaram mais indígenas ao Reino de Deus e o nome científico da planta passou a ser Passiflora edulis. Até a respetiva família botânica ficou cristianizada com a designação de Passifloraceae. Só alguns é que insistiram no nome de maracujá que, para nós pecadores, nos parece muito mais sonante e significativo.

A família das Passifloraceae tem perto de quatrocentas espécies, havendo vastas dezenas com frutos comestíveis. Embora de proveniência tropical, algumas espécies dão-se bem no continente português se não houver geadas. Os maracujás mais suculentos são, no entanto, os produzidos nos arquipélagos da Madeira e dos Açores onde servem de base a afamados doces e licores.

O maracujá é uma trepadeira com gavinhas espiraladas que chega a atingir nove metros de extensão. É provido de folhas trilobadas ou lobadas com bordadura serrilhada, alternas, verde-escuras, lisas e perenes. As flores são lindas e despertam a paixão como já acima foi descrito. Os frutos formam bagas ovais ou arredondadas que podem ir até aos 10 cm de diâmetro. A polpa, gelatinosa e sumarenta, contém numerosas sementes negras, pouco rijas, que se mastigam facilmente. A casca, que é coriácea, pode ser amarela, laranja, vermelha, castanha, ou púrpura, conforme a espécie.

Já há quem plante e comercialize maracujazeiros no nosso país devido ao crescente valor comercial dos frutos. Eles precisam de calor e de solos leves, bem drenados e profundos, embora o seu raizame seja superficial.

O maracujá possui pectinas, flavonóides, provitamina A, vitamina C e diversos ácidos orgânicos. Em pequeníssimas quantidades foram também detetados alcalóides (ácido cianídrico) principalmente nas folhas.

A infusão das folhas e das flores (30 g para 1 litro de água) é indicada para combater a ansiedade, o nervosismo e a insónia pelas suas propriedades sedativas, antiespasmódicas e soporíferas. É também utilizada para as chamadas curas de desabituação no tocante ao álcool e às drogas, incluindo o tabagismo, mediante vigilância médica.

Há quem recomende o maracujá como tratamento coadjuvante para diminuir a frequência das crises deepilepsia. Dado que também tem propriedades analgésicas e hipotensoras, pode ajudar nos casos de espasmos, enxaquecas, cólicas e hipertensão arterial.

O Dr. Lyon de Castro na sua “Medicina Vegetal”, para além da tisana e do extrato fluido que tem uma significativa atividade anti-inflamatória e antioxidante, privilegia igualmente a tintura com a toma de, pelo menos, quarenta gotas diariamente.

Mas para este “cronista”, a melhor forma de apreciar o maracujá, é cortá-lo ao meio e, com uma colherzinha, tragar a sua polpa doce e levemente ácida, de refinado e inconfundível sabor. Quando assim penso, a minha mente voa para Rio-dos-Cedros (Santa Catarina), onde com bons amigos brasileiros, companheiros de ideal, degustei com prazer robustos maracujás, muito maiores do que os raquíticos que por cá abundam. Uma referência final ao óleo das sementes que tem aplicações na cosmética, especialmente em cremes, loções, sabonetes, etc.

Sobre o autor

Miguel Boieiro
Miguel Boieiro
Miguel Boieiro é ex-autarca da Câmara de Alcochete e vice-presidente da Direção da Sociedade Portuguesa de Naturalogia.

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