Corrupção derruba um império brasileiro [2/3]

Esta é a segunda parte da série de um artigo publicado pela Agência Pressenza e parceiros sobre o impacto da corrupção na Economia do “gigante” da América do Sul. O texto, da autoria de Mario Osava, da IPS, analisa de forma lúcida e à frio o que se passa com os mecanismos da corrupção no Brasil.

Por Mario Osava

A ordem de detenção solicitada por tribunais peruanos contra o ex-presidente do país Alejandro Toledo (2001-2006), que residiria nos Estados Unidos, e denúncias envolvendo os atuais presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, e do Panamá, Juan Carlos Varela, constituem apenas a ponta do iceberg. Ainda não se sabe o que revelaram os dirigentes e ex-dirigentes da Odebrecht, como ex-diretores da área externa do conglomerado e ex-presidentes de braços especializados em infraestrutura, engenharia industrial ou logística.

Espera-se que, nos próximos meses, novos números sobre supostos subornos sejam acrescentados aos já revelados nos Estados Unidos, encabeçados pelos US$ 599 milhões distribuídos no Brasil, US$ 98 milhões na Venezuela, US$ 92 milhões na República Dominicana, US$59 milhões no Panamá e US$ 50 milhões em Angola. No Peru, foram “apenas” US$ 29 milhões desde 2005. É pouco, considerando que somente no gasoduto do Sul, ainda em construção, os investimentos previstos somam US$ 7 bilhões. O governo peruano já decidiu retirar o controle dessa obra das mãos da Odebrecht.

A Rodovia Interoceânica, que cruza o sul peruano desde a fronteira com o Brasil até portos no Oceano Pacífico, envolve, junto com a Odebrecht, outras três construtoras brasileiras – Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão –, todas investigadas por suspeita de corrupção. Durante a presidência de Alan Garcia (2006-2011), foi assinado com o Brasil um acordo para a construção de cinco grandes hidrelétricas no Peru, anulado por seu sucessor, Ollanta Humala (2011-2016) que, no entanto, tem sua campanha eleitoral sob suspeita de ter recebido US$ 3 milhões brasileiros.

A Odebrecht, que tem a concessão de Chaglla, a terceira maior hidrelétrica do Peru, com 462 megawatts de potência, seria a principal construtora das novas usinas. A multiplicação dos escândalos locais ou setoriais lança luz sobre os tentáculos dessa construtora. A Braskem, braço petroquímico do grupo, é acusada de distribuir US$ 250 milhões em subornos para apoiar seu papel de líder em produção de resinas termoplásticas, com 36 fábricas no Brasil e nos Estados Unidos, além da Alemanha.

O império, nascido em 1944 como uma simples construtora, foi se diversificando no último meio século e se expandiu para atividades tão diversas como a agroindústria da cana-de-açúcar, o desenvolvimento de tecnologias militares ou empresas de serviços petroleiros, de logística e de indústria naval, entre outras. No começo dos anos 1970, construiu a sede da Petrobras, selando uma relação que desembocou no desastre atual, que destruiu a reputação da empresa orgulhosa de sua “Tecnologia Empresarial”, um conjunto de princípios éticos e operacionais ao qual se atribuiu sua rápida expansão, mas que não previu a corrupção.

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